Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
Todo mundo, de uma forma ou de outra, conhece a história de Peter Pan, um clássico da literatura infantil. Criada pelo escritor escocês James M. Barrie (1860 - 1937), há quase um século, a história é mais conhecida pelas adaptações e versões que se distanciaram do texto original. Uma boa oportunidade para conhecer a história integral de Peter Pan, o garoto que se recusa a crescer, está no lançamento de ‘‘Peter Pan e Wendy’’ pela Editora Companhia das Letrinhas.
O personagem Peter Pan nasceu em 1902, não como livro, mas como um capítulo do romance ‘‘Pequeno Pássaro Branco’’ escrito por J. M. Barrie. Em 1906 reescreveu e retirou o capítulo publicando-o separadamente com o nome de ‘‘Peter Pan em Kensington Gardens’’. Após uma montagem teatral, a história se tornou popular e então o escritor criou a versão definitiva, ‘‘Peter Pan e Wendy’’, publicada em 1911. Apesar de sucessivas montagens teatrais o livro obteve sucesso.
É importante lembrar que, a exemplo de outros clássicos da literatura infantil, a história de Peter Pan não foi escrita para crianças, mas sim para o público adulto. O sucesso aconteceu em 1915, quando Barrie fez uma versão resumida destinada às crianças seguindo os padrões da política educacional da Inglaterra. Passando a ser utilizado nas escolas, Peter Pan ganhou grande popularidade.
‘‘Peter Pan e Wendy’’, lançado pela Companhia das Letrinhas, não é a primeira edição brasileira do texto original de 1911. A Quinteto Editorial publicou em 1992 ‘‘Peter Pan – O Livro’’ com tradução de Ana Maria Machado. O curioso é que Ana Maria, no posfácio do livro, admite que em seu trabalho de tradução não foi capaz de reproduzir fielmente algumas palavras de Barrie. Não conseguiu dizer que a Terra do Nunca existiria ‘‘enquanto as crianças forem alegres, inocentes e sem coração’’. Optou por ‘‘enquanto as crianças forem alegres, inocentes e de coração leve’’.
Esse é um dos detalhes que podem ser encontrados apenas no texto integral: as crianças não são constituídas apenas de bondade, mas também de maldade. Nem tudo é fantasia. Os meninos da Terra do Nunca adoram violência, ver sangue, matar os piratas do Capitão Gancho. Peter Pan não salva as crianças da morte por amor à vida humana, mas apenas para se exibir, para ser aplaudido. A fada Sininho, ocupada pelo ódio, tenta assassinar Wendy em várias situações. Wendy é uma verdadeira ‘‘Amélia’’ usada e abusada por Peter e sua turma – apesar de gostar de exercer tal papel. A sede de Peter Pan por aventuras perigosas é tamanha que ele passa a considerar a morte como a maior das aventuras.
Nos pequenos detalhes de ‘‘Peter Pan’’, J. M. Barrie deixa evidente o real motivo que leva o jovem Peter se recusar a crescer, viver na fantasiosa Terra do Nunca e jamais se tornar um adulto. Trata-se de um tema recorrente no universo infantil: a síndrome, o trauma do abandono. A partir do dia em que foi abandonado pelos pais, decide não tornar-se adulto para não constituir família e ter filhos. Em sua obsessiva revolta, não deseja reproduzir, com os filhos, o desprezo que teve dos pais.
Apesar das doses de fantasia e pureza presentes na história de James M. Barrie, existe a sombra de uma cíclica tragédia. Peter Pan vive uma espécie de autismo, isolado em seu coração. Uma espécie de isolamento que se transforma em sua grande virtude. Virtude corajosa que pode ser encontrada, na maioria dos casos, apenas em crianças.
• ‘‘Peter Pan e Wendy’’ de J. M. Barrie, ilustrações de Michael Foreman, Editora Companhia das Letrinhas, tradução de Hildegard Feist, 224 páginas, R$ 24,50.

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