O menino que rabiscava muros no Natal
A mesma força com que malha o ferro e o latão em seu ateliê, dando vida nova a materiais inanimados, Aragão quer esculpir outros artistas, como fez com o menino que dançava nu na serra.
Ele acredita ser o pioneiro da grafitagem no Brasil. Aos sete anos, costumava frequentar as barrancas dos rios em Campina Grande, buscando as itacoatiaras, palavra indígena que significa ''pedra pintada'', incrições gravadas nas pedras daquela região.
Aragão conta que adorava andar descalço pelo leito dos rios secos atrás das pinturas, que estabeleciam com o artista uma relação de mistério e perplexidade.
''Fechava os olhos e precurava sentir as pedras. Como era pobre, não conhecia o Natal. Então, o Natal, para mim, era época em que os ricos pintavam os muros das casas. Contam que eu saía, com as minhas bagunças, a rabiscar tudo com pedaços de carvão e cacos de telhas. O povo dizia: 'Olha lá, o muro que pintei está imundo'. Minha mãe me defendia, dizendo que eu não era ruim: 'Ele é meio diferente, mas ainda estou tentando entendê-lo'. Meu pai me batia, mandando eu prometer que não faria mais aquilo. 'Não prometo. ano que vem vou fazer de novo', era a minha resposta. Aí aprendi, que deveria fazer as pinturas mais longe da minha casa, mas depois de algum tempo as pessoas acabavam descobrindo. Só tinha uma mulher, que deixou um espaço na parede para eu pintar todo ano. Conforme eu ia crescendo, os desenhos iam ficando mais altos na parede'', lembra Aragão.
O rebuliço na cidade aumentou e as mulheres deseperadas foram cobrar a derradeira explicação da mãe do artista, que alimentou a todos com a sua sabedoria. A assembléia decidiu que seria melhor comprar lápis de cor e papel para o menino só andar pelado na serra e não esculhambar o muro dos outros. Mas, antes de entregar o material ao garoto, fizeram-no prometer que deixaria os moradores da cidade em paz.
O artista cresceu e resolveu pintar ainda mais longe do casebre em que morava, sem deixar na serra a polêmica que sempre correu atrás dele. Movia-o o desejo de alcançar a liberdade, seja na nudez de menino que ouvia uma música imaginária, fazendo-o lançar fora as roupas, seja em suas telas e esculturas.
Polêmica que tentou cobrir até o Cristo Libertador, obra do artista encomendada pelo bispo de Apucarana, dom Romeu Alberti, que, em 1975, pediu uma escultura para a matriz de Colorado, Nossa Senhora Auxiliadora. A peça em latão com três metros altura, além de um sol ao redor da cabeça de Jesus, tem uma pomba de dois metros de envergadura tapando a genitália. Inspirada na Teologia da Libertação, depois de 10 anos ornamentando a igreja, a obra foi expulsa do templo, acusada de imoral. Doada ao Museu Histórico Padre Carlos Weiss, a escultura foi parar no campus da UEL.
''Sempre fui muito místico. Ainda sou. Aos 14 anos tive um sonho muito maluco. Nos fundos da minha casa havia uma cerâmica enorme enterrada no chão, juntando água da chuva para a gente beber. Era o máximo tomar água do céu. Sonhei que Jesus estava ali, me olhando. Ele vinha andando no céu. Fiquei encantado. Não me joguei no chão, nem abaixei a cabeça, mas disse: 'Que bonito'. Jesus me respondeu dizendo que eu é que era bonito, acrescentando que eu tinha o coração muito duro. Quis saber por que me disse isso. Nunca tive essa resposta. Aí falei para a minha mãe: 'Vi Jesus. Ele disse que tenho o coração duro'. Minha mãe afirmou: 'Isso é coisa da sua cabeça'. Aí comecei a ir à igreja. Lá, ficava na frente do sacrário e perguntava: 'Qual a dureza do meu coração'? Eu chorava, mas nunca tive a resposta. Daquele momento em diante nunca mais deixei de me dirigir a Ele, quando tenho alguma dúvida pergunto para Ele'', afirma o artista.
A visagem não o perseguiu somente na infância, acompanhando o artista com as suas perguntas. Aragão comenta ainda que nunca teve a intenção de escandalizar ninguém. Ao expor a nudez de suas obras, o artista faz como que um auto-retrato. Atualmente, ele está finalizando 22 peças inspiradas no tarô que devem ser expostas em abril, na Alemanha.
Os observadores da série poderão interagir com as obras numa experiência mística. Aragão também está testando uma nova técnica de pintura com espátula.
O homem que interrogou Deus e não encontrou resposta, lembra que foge sempre para a infância na serra, onde preferia conversar com os bichos, observando o céu para tentar entender alguns mistérios - coisas como conversar com Jesus ou ver os peixinhos que apareciam depois da chuva, nos reservatórios de água no meio do mato em Campina Grande.
''Até hoje, ainda não entendo como aqueles peixinhos apareciam lá. Não tenho uma explicação para isso'', lembra o artista que tentou se alimentar da sabedoria de sua mãe, perguntando se chovia peixe do céu. Porém, nem ela teve uma resposta para aplacar sua insaciável fome de saber.





