Ele devia ter uns oito anos e pela maneira como manejava o papel de seda e as varetas, logo se via que era um grande fazedor de pipas. Mais do que a habilidade, o que prendia a atenção era a sua teimosia. Se o papel rasgava, pacientemente pegava outra folha, recortava, acertava as medidas e com as mãos pequenas montava tudo de novo, como quem se dedica a uma obra-prima. Com as varetas era a mesma coisa, calculava a envergadura minuciosamente e se alguma apresentava farpas, o menino emprestava a lixa de unhas da mãe e a alisava, como quem faz um carinho.

Depois vinha o mais difícil: colocar a pipa no ar. Para isso, escolhia dias que não tivessem nem muito nem pouco vento. Era preciso um equilíbrio entre as forças da natureza e o engenho humano para que a pipa voasse como nas tardes de agosto, quando os anjos parecem ajustar os sopros com a vontade das crianças.

O desejo de manter a pipa no espaço também tinha de ser forte. Depois do esforço da subida, quando ela parecia dar cabeçadas contra o nada, finalmente planava, mas ia se tornando pesada e o menino, como um homem do mar, outra vez exercitava toda sua habilidade, puxando e soltando a linha, até a pipa quase tocar a lua. Assim parecia à noitinha, quando os olhos do bairro ficavam pregados naquele voo, encantados com a leveza da seda que flutuava sem asas, embora exibisse uma extensa rabiola.

Com o passar do tempo, o menino foi se desinteressando pela brincadeira. Ali pelos doze anos trocou a pipa por carrinhos de rolimã ou bicicletas, apaixonando-se pela velocidade.

Passada a fase de Ícaro, projetada nas pipas, e de grande corredor simulado da Fórmula 1, deixou os sonhos alados ou velozes, entrou na complexidade dos adultos a quem interessa estudar para trabalhar, trabalhar para ganhar dinheiro.

Aos 25 anos, nem de longe lembrava aquele garoto de cabelos loiros, entusiasmado com as próprias invenções. Formou-se engenheiro, mas projetou casas sem muito entusiasmo e, aos 30, consumia todo tempo fazendo contas, pensando no material a ser gasto e na economia da obra.

Cada vez mais sisudo, chegou aos 40 num casamento estável e com três filhos. O caçula, ali pelos oito anos, se interessou por pipas. O pai não teve paciência para ensiná-lo a recortar papéis e nem se lembrava que a linha 10 era a mais utilizada nos carretéis de mil jardas. Assim, perdeu a própria infância e a infância do filho, trocando o interesse pelo vento por um súbito interesse pela caderneta de poupança. Morreu aos 70 sem nenhum vestígio de liberdade, porque tinha se esquecido da mais ingênua das ciências: fazer o sonho voar.



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