Mais dia ou menos dia a maioria dos velhos relembra, na tela cinematográfica da memória, a descoberta do sexo na infância e na juventude. Imagens que permanecem arquivadas e que, quando reativadas, podem abrir a jaula de instintos e impressões recobertos de poeira e teias de aranha.
Em seu novo livro, ‘‘Minha Mão Morrendo e O Menino Mentido’’, o escritor curitibano Valêncio Xavier percorre os corredores de uma certa memória procurando o menino que, no passado, habitava esse labirinto. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o livro traz três narrativas distintas e ao mesmo tempo interligadas. Elas preservam o particular estilo do escritor, que trabalha com a interação entre textos e imagens num sentido onírico e anárquico.
Os três textos são narrados por uma espécie de alter ego de Valêncio Xavier que investiga a própria memória. O primeiro deles, intitulado ‘‘Minha Mãe Morrendo’’, apresenta lembranças da mãe, de seu casamento até seu falecimento. Tudo a partir de imagens fragmentárias que dão suporte ao texto e vice-versa. No segundo texto, ‘‘O Menino Mentido - Topologia da Cidade Por Ele Habitada’’, o narrador revira as lembranças de seus primeiros anos de vida na cidade de São Paulo. Tudo através de imagens retidas na memória – escola de padres, livros de Monteiro Lobato, histórias em quadrinhos, filmes, mapas, anúncios publicitários, etc.
No terceiro texto, ‘‘O Menino Mentido’’, o narrador continua em seu processo de descoberta da sexualidade. As imagens continuam a exercer forte influência nas palavras. Além das referências já citadas, entra em jogo uma antiga história em quadrinhos protagonizada por Lampião, o rei do cangaço. Os desenhos recebem a ajuda de fotografias das cabeças degoladas de todo o bando de Lampião num processo que mescla passado e presente nos corredores da memória do narrador. O desenho de um olho piscando, sucessivamente a cada página, acelera a viagem apresentada ao leitor.
É extremamente difícil descrever com exatidão o trabalho desenvolvido por Valêncio Xavier. O caráter fragmentário que trafega num mundo de sombras, nebuloso e associativo, inflamado pelo acúmulo de referência aleatórias (aparentes ou não), deixa sua obra mergulhada num verdadeiro tanque de possibilidades para pesquisadores acadêmicos.
A impressão que se tem é que Valêncio, a partir de dezenas de imagens coletadas de maneira aleatória, todas antigas, de um mundo que não mais existe, começasse a compor histórias a partir da invenção de possíveis e impossíveis relações entre elas. Imagens que, isoladas do contexto original, permanecem órfãs, completamente descontextualizadas e carentes de leitura. O trabalho artesanal do escritor estaria em recontextualizar de algum modo essas imagens perdidas no tempo e no espaço. Para isso, cria novas histórias para elas, ou melhor, escreve histórias a partir das mesmas como se costurasse as contas de um colar.
O resultado desse trabalho é inusitado e único. A obra de Valêncio Xavier, autor de mais de dez livros, permaneceu durante décadas restrita a um pequeno grupo de leitores. Em 1998 esse quadro mudou de figura com a publicação de ‘‘O Mez da Grippe e Outros Livros’’ pela Companhia das Letras. Reunindo cinco livros do escritor, a edição ganhou projeção nacional chegando até leitores que nunca tiveram acesso à sua obra. Chegou até frequentar a lista dos mais vendidos. Na sequência a Editora Ciências do Acidente publicou ‘‘Meu 7º Dia - Novela-Rebus’’. Em junho chega às livrarias um novo título, ‘‘O Corpo do Sonho’’, pela Ciências do Acidente.
Valêncio Xavier é um criador de qualidades específicas. Desenvolve uma literatura original onde as palavras não podem ser separadas das imagens que a geraram e vice-versa. Na literatura brasileira pode ser comparado apenas ao mineiro Sebastião Nunes (outro autor que trabalha, com particularidades próprias, as relações entre texto e imagem de maneira satírica e que ainda permanece desconhecido do grande público). A estranheza que as criações do escritor pode causar é parte integrante da própria obra – a obra é estranha porque estranha é a obra da vida. Em outras palavras, tudo dentro da alucinada normalidade.
•Minha Mãe Morrendo e O Menino Mentido - De Valêncio Xavier, Editora Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 29,00.

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