O menino com a bengala erguida
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de abril de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Mais dia ou menos dia a maioria dos velhos relembra, na tela cinematográfica da memória, a descoberta do sexo na infância e na juventude. Imagens que permanecem arquivadas e que, quando reativadas, podem abrir a jaula de instintos e impressões recobertos de poeira e teias de aranha.
Em seu novo livro, Minha Mão Morrendo e O Menino Mentido, o escritor curitibano Valêncio Xavier percorre os corredores de uma certa memória procurando o menino que, no passado, habitava esse labirinto. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o livro traz três narrativas distintas e ao mesmo tempo interligadas. Elas preservam o particular estilo do escritor, que trabalha com a interação entre textos e imagens num sentido onírico e anárquico.
Os três textos são narrados por uma espécie de alter ego de Valêncio Xavier que investiga a própria memória. O primeiro deles, intitulado Minha Mãe Morrendo, apresenta lembranças da mãe, de seu casamento até seu falecimento. Tudo a partir de imagens fragmentárias que dão suporte ao texto e vice-versa. No segundo texto, O Menino Mentido - Topologia da Cidade Por Ele Habitada, o narrador revira as lembranças de seus primeiros anos de vida na cidade de São Paulo. Tudo através de imagens retidas na memória escola de padres, livros de Monteiro Lobato, histórias em quadrinhos, filmes, mapas, anúncios publicitários, etc.
No terceiro texto, O Menino Mentido, o narrador continua em seu processo de descoberta da sexualidade. As imagens continuam a exercer forte influência nas palavras. Além das referências já citadas, entra em jogo uma antiga história em quadrinhos protagonizada por Lampião, o rei do cangaço. Os desenhos recebem a ajuda de fotografias das cabeças degoladas de todo o bando de Lampião num processo que mescla passado e presente nos corredores da memória do narrador. O desenho de um olho piscando, sucessivamente a cada página, acelera a viagem apresentada ao leitor.
É extremamente difícil descrever com exatidão o trabalho desenvolvido por Valêncio Xavier. O caráter fragmentário que trafega num mundo de sombras, nebuloso e associativo, inflamado pelo acúmulo de referência aleatórias (aparentes ou não), deixa sua obra mergulhada num verdadeiro tanque de possibilidades para pesquisadores acadêmicos.
A impressão que se tem é que Valêncio, a partir de dezenas de imagens coletadas de maneira aleatória, todas antigas, de um mundo que não mais existe, começasse a compor histórias a partir da invenção de possíveis e impossíveis relações entre elas. Imagens que, isoladas do contexto original, permanecem órfãs, completamente descontextualizadas e carentes de leitura. O trabalho artesanal do escritor estaria em recontextualizar de algum modo essas imagens perdidas no tempo e no espaço. Para isso, cria novas histórias para elas, ou melhor, escreve histórias a partir das mesmas como se costurasse as contas de um colar.
O resultado desse trabalho é inusitado e único. A obra de Valêncio Xavier, autor de mais de dez livros, permaneceu durante décadas restrita a um pequeno grupo de leitores. Em 1998 esse quadro mudou de figura com a publicação de O Mez da Grippe e Outros Livros pela Companhia das Letras. Reunindo cinco livros do escritor, a edição ganhou projeção nacional chegando até leitores que nunca tiveram acesso à sua obra. Chegou até frequentar a lista dos mais vendidos. Na sequência a Editora Ciências do Acidente publicou Meu 7º Dia - Novela-Rebus. Em junho chega às livrarias um novo título, O Corpo do Sonho, pela Ciências do Acidente.
Valêncio Xavier é um criador de qualidades específicas. Desenvolve uma literatura original onde as palavras não podem ser separadas das imagens que a geraram e vice-versa. Na literatura brasileira pode ser comparado apenas ao mineiro Sebastião Nunes (outro autor que trabalha, com particularidades próprias, as relações entre texto e imagem de maneira satírica e que ainda permanece desconhecido do grande público). A estranheza que as criações do escritor pode causar é parte integrante da própria obra a obra é estranha porque estranha é a obra da vida. Em outras palavras, tudo dentro da alucinada normalidade.
Minha Mãe Morrendo e O Menino Mentido - De Valêncio Xavier, Editora Companhia das Letras, 224 páginas, R$ 29,00.


