O MENESTREL DOS BOTEQUINS
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Um princípio de comemoração anunciou, há poucos meses, os 90 anos de nascimento de Nelson Cavaquinho. Mas no livro recém-lançado sobre o compositor, a data festiva é outra. Segundo Flávio Moreira da Costa, o autor, Nelson só completaria as nove décadas de vida em 2001.
Mas, controvérsias à parte, o próprio lançamento do volume é uma bem-vinda antecipação às homenagens que deverão lembrar o menestrel dos botequins. Intitulado Enxugue os Olhos e me Dê um Abraço, o livro foi encomendado pela coleção Perfis do Rio, um projeto da editora Relume Dumará em parceria com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Nelson Cavaquinho é tratado com reverência e zelo de fã. Sua figura salta das páginas como um genial poeta popular, que sempre preferiu virar noites tocando descompromissadamente em rodas de choro e samba a buscar o sucesso, o dinheiro ou a fama. Perdedor a vida inteira, fazia de suas derrotas no dia-a-dia a matéria-prima para suas canções.
Deus, morte, mulher e a Mangueira foram seus temas prediletos. Sua vasta obra reúne um total de 600 composições, das quais 120 foram gravadas em vida e dezenas teriam se perdido entre um porre e outro. Gota Luas, uma de suas mais bonitas composições, fornece nobreza ao novo disco de Marisa Monte. As cantoras, aliás, foram segundo o autor as que melhor interpretaram suas músicas, as que mais perto chegaram da intimidade de sua alma.
Odete Amaral, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Elza Soares, Telma Soares, Cristina Buarque e Beth Carvalho constituem a constelação das mulheres que o ajudaram a sair do anonimato. Sua cara e sua voz, porém, demoraram para aparecer ao grande público. Só nos anos 60 e 70 é que o Brasil passou realmente a conhecê-lo e reconhê-lo. Mesmo assim, uma parcela mínima de sua criatividade foi registrada em gravações, seja por intérpretes ou por ele mesmo.
No auge da Bossa Nova, passou maus bocados. O autor relata situações vividas por amigos seus, que encontraram Nelson tocando para frequentadores de restaurantes em troca de comida. Na época, o então governador da Copacabana, Negrão de Lima, ofereceu uma casa (pois nem isso ele tinha) e uma pequena pensão ao artista.
A essa altura, ele já era lenda na Praça Tiradentes, centro do Rio, onde batia ponto num bar batizado por ele e seu parceiro Guilherme de Brito de Cabaré dos Bandidos. O lugar era impróprio para grã-finos, frequentado por prostitutas, marginais e boêmios. A poucas quadras dali, os bem-sucedidos da música popular se reuniam no Café Nice, que acolhia compositores de
samba-canção, cantores do rádio e jornalistas de prestígio.
Para Nelson Cavaquinho, a glória era secundária. De origem humilde, sua mãe (paraguaia e índia) trabalhava como lavadeira e seu pai era contramestre da Banda da Polícia Militar. Estudou só o primeiro ano do primário, e mesmo assim vivia matando aulas para brincar na Praça do Passeio Público que ficava ao lado da escola.
O primeiro cavaquinho foi de brinquedo: uma caixa de charutos improvisada com pregos e cordões. Não tinha técnica nem conhecimento formal em música. Começou tocando cavaquinho e chorinho, passando depois para o violão e o samba. Desenvolveu um estilo peculiar de tocar os instrumentos usando apenas dois dedos, o polegar e o indicador, com os quais beliscava as cordas.
Ao circular pelas rodas de choro, deixava os veteranos embasbacados. Aos 20 anos, já bebia todas. Mesmo casado, costumava passar duas ou até três dias seguidos na farra. A verdade é que Nelson não seria Nelson sem a bebida proclama Flávio Moreira. Em sua trajetória errática, compôs várias músicas de porre e outras tantas de ressaca.
Palhaço, lançada por Dalva de Oliveira, saiu de uma manhã pesada. Clássico de seu repertório, traz o verso que dá título ao livro: Sei que é doloroso um palhaço / se afastar do palco por alguém / Volta que a platéia te reclama / Sei que choras palhaço / por alguém que não te ama / Enxuga os olhos e me dá um abraço / não te esqueças que és um palhaço /faça a platéia gargalhar / um palhaço não dever chorar.
Ainda jovem, Nelson entrou para a Polícia Militar. O boêmio precoce vestiu farda e foi designado para o setor de Cavalaria, onde serviu durante oito anos. Para a sorte da música popular brasileira, foi escalado para patrulhar o morro da Mangueira onde conheceria Cartola e Carlos Cachaça. Sem que ele mesmo soubesse, nota o autor, iniciaria uma longa convivência com o morro e sua gente: ia enfim fazer seu doutorado em matéria de samba.
Prolífico compositor, Nelson não dava bola para a autoria de suas músicas. Não ligava para dinheiro. Era ingênuo diante da máquina do mercado fonográfico que começava a se armar. Bastava alguém oferecer uns trocados para seu nome aparecer como parceiro, que ele aceitava sem pestanejar. Flávio Moreira lembra o caso de César Brasil, gerente de hotel e um dos tantos companheiros de copo da Praça Tiradentes.
O sujeito jamais escreveu um verso ou criou uma melodia, mas aparece como co-autor de quatro composições de Nelson Cavaquinho. O grande e verdadeiro parceiro por mais de 40 anos foi Guilhermino de Brito (hoje com 77 anos). Juntos fariam letras & músicas como Pranto do Poeta, Miragem, Quando Eu me Chamar Saudade, Folhas Secas e A Flor e o Espinho.
Eles compunham no Cabaré dos Bandidos, depois que Guilhermino saía do trabalho. Como não tinha, e nem sei se existia gravador, fomos nos esquecendo da maioria das músicas. Muitas coisa se perdeu pelo fato de nós não termos como gravá-las conta o amigo num depoimento incluído no volume. A música A Flor e o Espinho, criação da dupla e a mais conhecida de Nelson, é motivo de controvérsias.
Há quem dê todo o crédito da letra a Nelson, há quem só lhe atribua a melodia. O autor contesta alguns pesquisadores e mostra que Cavaquinho fazia tanto a melodia quanto a letra, na base de entregar a primeira parte com música e versos para o parceiro completar com a segunda parte também música e letra ou vice-versa.
No caso deA Flor e o Espinho, traz o depoimento de Guilherme assinalando que são seus os célebres versos iniciais Tira o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor, mas que a segunda parte foi composta pelo parceiro. A música foi gravada a primeira vez por Raul Moreno, mas só estourou na voz de Elizeth Cardoso, sucedendo-se a partir daí inúmeras regravações.
No dia 19 de dezembro de 1985, ele foi internado pela primeira vez. Estava com enfisema pulmonar. Passou quinze dias no leito do hospital, seguido de um período curto em casa (fraco, caminhava pela casa apoiado na mulher Durvalina ou na filha-enteada) e um retorno à clínica. Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1986, ele passou a se chamar Saudade. Tinha 75 anos. Morreu na cama ao lado do violão.


