Nelson CapuchoO melhor jogador do mundo
Quem menos entendia de futebol ali, tinha a escalação do América de 1953 na ponta da língua. Era uma família de ‘‘experts’’, reunida depois do churrasquinho, à espera do jogo da Seleção na TV.
O pai deu o pontapé inicial:
- Hoje em dia não tem mais craques, artistas da bola...
O tio tentou interceptar o lançamento.
- O Romário é craque. Cabeça-de-vento, mas um craque.
O caçula emendou de primeira:
- Melhor um cabeça-de-vento que dez cabeças-de-bagre, há,há,há!
- E o Ronaldinho?
- Pra mim, ainda é uma promessa - disse o pai.
O cunhado entrou de sola:
- Peraí, peraí: a gente está falando de uma geração fraquinha. Time igual àquele de 70, nunca mais.
O filho mais velho tabelou com o agregado:
- É verdade. Clodoaldo, Rivelino, Gérson, Tostão e Pelé em plena forma, aquilo era covardia.
O pai tirou de chaleira:
- Isso porque vocês não viram as Copas de 58 e 62. Não têm idéia do que jogavam Nilton Santos, Didi e, na minha modesta opinião, o melhor jogador do mundo de todos os tempos: Mané Garrincha.
O caçula deu um toque de cabeça:
- Mas ele não era maluco?
- Maluco nada. Era um gênio, um menino brincalhão, num tempo em que a Seleção bebia, fumava e jogava mesmo. Não tinha essa conversa de que empate era bom resultado.
- Garrincha não foi melhor que o Pelé.
- Esses caras não eram tudo isso. O Ronaldinho...
- E o Zico?
- Tá brincando?
- Você não entende nada.
Começou uma discussão sobre o melhor jogador de todos os tempos. Alguém lembrou os estrangeiros. O tempo esquentou.
A mãe, árbitro experiente, ameaçou mostrar o cartão vermelho. E para serenar os ânimos, pediu a o opinião do pai dela, que até àquela altura da partida balançava-se tranquilamente no banco de reservas.
Os rapazes deram uma força:
- É isso aí, vô, fala daquele jogador que tinha nome de chocolate.
- Leônidas da Silva, o ‘‘diamante negro’’.
- E o Leônidas, foi melhor que o Pelé?
- Bom jogador. O Pelé também. Mas craque mesmo era o Lilico.
O estádio silenciou. Ninguém nunca ouvira falar desse cara.
- O Lilico tinha uma bomba no pé esquerdo. Uma vez o irmão estava no gol adversário e ele foi cobrar um pênalti...
- Ué, já ouvi esta história, mas com o Pepe, do Santos...
- Que Pepe o quê, aconteceu com o Lilico, quando ele jogava no Madureira. Eu estava no campo. Com a bola nos pés então, era um demônio. Uma vez driblou a defesa inteira e ficou ensaiando o chute final, até o goleiro abrir as pernas.
- Não foi o Garrincha?
- Nada. Foi o Lilico.
E o velho passou a contar uma façanha do Lilico atrás de outra. Ninguém aguentava mais. Quando a TV iniciou a transmissão do jogo, a família sentiu um certo alívio. Mas no primeiro lance desperdiçado pelo Bebeto, o vovô não aguentou:
- Ah, se fosse o Lilico!

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