O 37º Festival de Gramado mudou seu QG depois de muitos anos. Mais distante do centro da cidade: a desvantagem. Muito mais amplo e com estrutura sensivelmente melhor: a vantagem. Tudo de bom: o sol, com temperaturas amenas, voltou afinal para secar a Serra Gaúcha encharcada. Tudo de ruim: por causa do calor, pode voltar a chover hoje com nova queda brusca de temperatura.
Os filmes. Na seção Brasil, destaque para o documentário ''Corumbiara'', de alta voltagem dramática, sobre um massacre de índios em Roraima, 1985. Outro documentário, ''Cildo'', sobre o artista plástico Cildo Meireles. Uma ficção feita no Rio Grande do Sul, ''Quase Um Tango'', simpática mas sem grande charme. O experimental ''Canção de Baal'', de Helena Ignez, que transporta o espectador de volta aos tempo do udigrudi - a diretora foi musa e mulher de Rogério Sganzerla, Glauber Rocha e Julio Bressane. Aprendeu com os três e realizou um filme arrojado, provocador.
Entre os latinos, destaque absoluto para o peruano ''La Teta Asustada'', Urso de Ouro este ano em Berlim. É a história de um mito, segundo o qual as mulheres que nos anos 1980 foram violentadas pelos guerrilheiros do Sendero Luminoso passavam a suas filhas, através do leite, o mal da ''teta assustada''. Isto é, um medo que praticamente as paralisava para a vida. Fausta, personagem do filme, para proteger-se deste medo da violação introduz uma batata na vagina.
O filme, em grande parte falado na velha língua quéchua, agarra o espectador aos poucos, de forma pausada, proporcionando um mergulho na cultura indígena. A diretora Claudia Llosa, que não pôde estar presente em Gramado para debater seu trabalho premiado, imprime precisa e necessária visão para que se compreenda uma sociedade aqui nossa vizinha onde coexistem a superstição ignorante, o medo à autoridade, a hierarquização social, a pobreza secular e formas de amor e celebração tão contraditórias.
Já o colombiano ''Nochebuena'' é uma comédia social, estapafúrdia, estridente, quase alucinada. De novo o tema da família moral, social e economicamente desagregada reunida em véspera de Natal. O documentário argentino ''La Próxima Estación'' é o quarto filme da série que Fernando Solanas vem fazendo sobre os descalabros que a corrupção vem produzindo na Argentina nos últimos governos. Filme típico de denúncia e conscientização social, é uma obra áspera e contundente sobre a pilhagem que os políticos empreenderam contra o sistema ferroviário argentino.
Na série homenagens, até ontem os agraciados do ano foram o ator e realizador Reginaldo Faria (Troféu Oscarito), o diretor Walter Lima Jr (Troféu Eduardo Abelin) e a apresentadora Xuxa, gaúcha de Santa Rosa cuja vinda ontem à cidade para buscar seu prêmio especial promoveu uma pequena, mas incômoda revolução na cobertura da mídia, obrigada a se sujeitar a umas quantas exigências da organização - a pedido da própria homenageada, diga-se.

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