As seleções de festivais internacionais têm sempre algo de enigmático, o que não significa necessariamente que sejam inteligentes. Ainda que no papel, em primeira instância, representem esperança renovada. A de Cannes-99, responsável pela escolha dos filmes da competição oficial, embora esteja longe de ser desastrosa, com certeza não é das mais brilhantes. A dificuldade para encontrar filmes de fato interessantes, que não deponham contra o prestígio do maior festival internacional de cinema, é reconhecidamente grande, mas não justifica certas presenças - que acabam reforçando a impressão de desnível entre os filmes programados. Filmes que, em confronto também com outros espalhados pelas alternativas não competitivas - Um Certo Olhar, Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica -, não raro provam que o caminho da qualidade muitas vezes conduz obrigatoriamente a estas mostras paralelas.
France PresseO jogador Ronaldinho fotografado em Cannes onde foi assistir à exibição de ‘‘Felicia’s Journey’’Detectado o problema, o que não é tarefa das mais difíceis, o maior obstáculo para a imprensa especializada que cobre o festival está em reorganizar o organograma previamente traçado, e com estafante frequência invocar o penoso benefício da ubiquidade. Somente assim é possível abrir uma janela maior em busca de um cinema mais original, mais oxigenado. Também é preciso controlar a sensação de inquietude (quem sabe na sala ao lado não está sendo exibido um filme melhor ?). De resto, contrariando o chinês Ang Lee, ‘‘comer, beber, viver’’ passam a ser procedimentos supérfluos nessas duas semanas de sobrevivência espartana.
Quando se passa de uma projeção à outra com rapidez, às vezes não é possível refletir em detalhes sobre o que se acabou de ver. Mas, por maior que seja o frenesi e o clima de inquietação, quando um filme de força e sensibilidade acima da média bate na tela, cessa tudo o mais. É o que acontece com o inglês ‘‘Wonderland’’, de Michael Winterbottom, uma esfuziante crônica familiar. Melhor: uma espécie de ‘‘blitzkrieg’’ familiar, uma deliciosa mélange do estilo narrativo entrecruzado do Robert Altman de ‘‘Short Cuts’’ com os procedimentos técnicos minimalistas do ‘‘Dogma 95’’ apresentado ano passado aqui em Cannes pelos dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg. Filmado quase inteiramente com equipamento leve, em Super 16mm esplendidamente ampliado para 35 panorâmico, usando somente luz natural e um time de extras não profissionais, ‘‘Wonderland’’ centra sua atenção numa família inglesa comum de classe média que vive numa Londres desglamourizada. A ação se passa num único fim de semana de celebrações em novembro. Pai e mãe e quatro filhos adultos vivem suas vidas em separado, seus problemas e frustrações e aspirações. Nada inteiramente livre de clichês, mas feito com sincero enfoque simultaneamente realístico e poético.
France PresseUm monge tibetano (à direita) e o ator Jamyang Loro: jogo simulado no dia da exibição de ‘‘The Cup’’Já o russo-germânico ‘‘Moloch’’, de Aleksander Sokurov, não diz a que veio. Talvez ainda exista um grande filme a ser feito sobre a vida privada de Adolf Hitler e Eva Braun, mas definitivamente não é este. Durante um fim de semana em 1942, o Fuhrer e sua amante se encontram numa espécie de fortaleza, provavelmente nos Alpes Bávaros nas montanhas, com a presença de Martin Bormann e Joseph Goebbels com as respectivas. O que temos é uma tentativa frustrada de crônica secreta de uma love story que alterna comédia maluca dos anos 30 (no banheiro, Eva chuta o traseiro de um patético Hitler de cuecas) com pseudo-dúvidas históricas de raro cinismo - Hitler indaga a Bormann: ‘‘Auchwitz? O que existe em Auchwitz?’’
Outra escalação no mínimo duvidosa é o tríptico iraniano ‘‘Os Contos de Kish’’, feito por encomenda e assinado por Moshen Makhmalbaf, Abolfaz Jalili e Nasser Taghvai. E se ninguém até o momento tinha ouvido falar na ilha de Kish (não confundir com a cidade de Kish, no Iraque, de resto ninguém também conhece...), é bom saber que a ‘‘Pérola do Golfo Pérsico’’ é um dos hits turísticos do Irã, com praias belíssimas, duty-free e sem necessidade de visto de entrada. O filme, na verdade três curtas que juntos somam 72 minutos, sensibilizou apenas os irãmaníacos mais fanáticos - o que significa que o programador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o crítico Leon Cakoff, já está com os direitos comprados para exibição em outubro no Brasil. Entre as três histórias, todas com impressionantes apelos visuais para melhor vender o pacote turístico - com direiro a curtir o 1º Festival Internacional de Kish, com destaque para filmes independentes e prêmios de até 100 dólares - a que se sai melhor é uma espécie de poema visual de Makhmalbaf. Segundo se informa, há mais três curtas prontos e que deverão ser enviados a Veneza, em setembro.
Após a estréia deprimente com ‘‘Pola X’’ e a digna recuperação com ‘‘Le Temps Retrouv钒, novo tropeço do cinema francês em competição. Desta vez é ‘‘L’Humanit钒, que de imediato leva o troféu de mais enigmático produto até agora visto no festival. É sem duvída um filme-provocação, uma obra que leva o naturalismo e a compaixão a extremos questionáveis. São alguns dias na vida de um policial de uma cidadezinha do interior, durante a investigação de um caso de uma garota estuprada e morta. Um homem e seus detalhes de comportamento, ação e movimentos banais, de vulnerabilidade, fraqueza, incompetência. O que causa permanente desconforto é a glacial e prolongada (2h28) postura de entomologista do diretor Bruno Dumont ao dissecar em vida o personagem, na tentativa de extrair dele a humanidade. Na tentativa de buscar a verdadeira essência da natureza humana, o filme resvala na gigantesca pretensão e provoca a primeira polêmica de Cannes-99, além de muitos risos na plateía. Não desejados pelo diretor, é claro.
France PresseDa direita para a esquerda, o ator francês Isaach de Bankole, os atores americanos RZA e Forest Whitaker e o diretor Jim JarmushTransitando numa faixa intermediária estão os não comprometedores ‘‘Felicia’s Journey’’, de Atom Egoyan, e ‘‘Ghost Dog, the Way of the Samourai’’, de Jim Jarmush.
Egípcio de nascimento, de descendência armênia e canadense por adoção, Egoyan pode ser acusado de tudo, menos de incoerência. Cá está ele de novo, em ‘‘Felicia’s Journey’’, empenhado na mesma luta de seus personagens anteriores (‘‘Exótica’’, ‘‘O Doce Amanh㒒) em seguir em frente, mesmo diante de circunstâncias adversas extremas. Baseado em romance de William Trevor, é a história de uma jovem grávida que sai da Irlanda em busca do namorado. Em Birmingham ela conhece um solteirão solitário, Hilditch (Bob Hoskins, candidato a repetir a premiação de melhor ator em Cannes em 86 por ‘‘Mona Lisa’’ ), incansável protetor de moças sem-teto. Protetor e serial killer, assombrado pelas lembranças da mãe dominadora. É um sofisticado thriller psicossexual no gênero cabeça, recheado de freudianismos mas numa linha cabeça mais light do que ‘‘O Silêncio dos Inocentes’’, por exemplo. Como sempre em Egoyan, o trabalho de câmera e a montagem são sublimes, além do excelente uso de hits populares como ‘‘My Special Angel’’ e ‘‘More Than Ever’’.
Revelado em 84 aqui mesmo em Cannes, quando ‘‘Stranger Than Paradise’’ ganhou o premio Caméra d’Or para primeira obra, Jim Jarmush escolheu desta vez uma insólita ainda que não inédita alquimia entre o film noir e o filme de samurai. É um personagem deslocado, este assassino profissional vivido por Forest Whitaker, uma espécie em extinção que vive guiado pelo código de um velho texto samurai. Um dia ele e os mafiosos para quem trabalha se desentendem, e Ghost Dog reage segundo os preceitos de seu código. Como um ninja. Jarmush fez um filme de gângster espiritual que na verdade não é um filme de gângster, assim como seu filme anterior, o western surreal ‘‘Dead Man’’ não é de fato um western. É outra incursão no tema mais caro a Jarmush, a América inter-racial e sua cultura, suas diferentes culturas, suas influências transplantadas. Uma América sobre espécies humanas em extinção, sobre códigos de honra. Tudo embalado por uma trilha musical onde o rap de RZA confere aos caminhos do samurai um moderno suingue urbano.

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