São Paulo, 16 (AE) - Vai ser lançado amanhã (17), com grande festa, que começa às 19 horas e promete madrugada cheia - chope gelado, samba e tira-gostos no cardápio - o disco "Esquina Carioca - Uma Noite com a Raiz do Samba". É um lançamento da gravadora Dabliú, com distribuição da Eldorado e produção do Bar Pirajá. O festa vai ser no Pirajá, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, em Pinheiros, telefone 816-6413, em São Paulo.
O time do disco é apenas o melhor do samba. Estão ali três gerações de bambas: Dona Ivone Lara, Walter Alfaiate, João Nogueira, Beth Carvalho, Luís Carlos da Vila e Moacyr Luz, com participação especial do onipresente e sempre bem-vindo Nelson Sargento. Foi Nelson quem vaticinou, na célebre composição: "O samba agoniza, mas não morre." Coisa que vem sendo comprovada, como esse disco confirma.
"Esquina Carioca - Uma Noite com a Raiz do Samba" foi gravado ao vivo na Tom Brasil, no dia 24 de março do ano passado. Os titulares foram acompanhados por um time à sua altura: Carlinhos Sete Cordas, Pedro Amorim (bandolim e cavaquinho), Beto Cazes e Marcelo Moreira (percussão diversa), Gordinho (surdo) e Dorina e Teresa Cristina (vocais). Reparem que não há contrabaixo ou bateria. São coisas de que o verdadeiro samba prescinde. O violão de sete cordas colore a marcação definida pelo surdo. As percussões conversam com as cordas: são parte da música. A direção musical leva a assinatura de Moacyr Luz.
Mestre-de-cerimônias - Moacyr foi o mestre-de-cerimônias. O show foi concebido como uma roda de samba: músicos à mesa, no meio da platéia, sobre um tablado de 20 centímetros, só para facilitar a visão, público em volta, o típico ambiente descontraído. Há descontração nesse tipo de encontro, coisa que não significa dispersão, desatenção. O samba flui. Alegria é seu componente fundamental - mesmo quando canta dores e sofrimentos, a marca é alegre. E para haver alegria precisa haver descontração. Ela permite que o ritmo se confunda com o do corpo. O pagode duro dos grupos bregas de hoje tenta impor ao corpo sua batida sem molejo. O samba de raiz, ao contrário, toma o movimento do corpo como ponto de partida. Faz toda a diferença.
É esse samba que está no disco, idealizado pelos donos do Pirajá, Edgar, Sérgio, Ricardo, Fernando e Mário, paulistanos até a raiz dos cabelos, amantes da cultura brasileira. Foi esse amor que os levou a chamar seu botequim de Pirajá, nome de rua da zona sul carioca, e a cognominá-lo Esquina Carioca. Nas paredes há reproduções de crônicas futebolísticas de Nélson Rodrigues, fotos históricas de Cartola, Moreira da Silva, Mestre Delegado, Carlos Cachaça, Tom Jobim, gravuras carnavalescas do paranaense (radicado em São Paulo) Elifas Andreato.
Há, sobretudo, um painel de Nilton Bravo. Espaço para explicar quem é Nilton Bravo: de cabo a rabo, no Rio, os botequins históricos tinham, muitos ainda têm, painéis de Nilton Bravo, que foi chamado, a certa altura, de o "Michelangelo dos botequins".
Paisagens - Bares vagabundos e grandes casas de mais pretensão ostentavam - algumas ainda ostentam - as paisagens do pintor: em geral, uma vista da Baía de Guanabara em que todos os acidentes geográficos são visíveis: Pão de Açúcar, Corcovado, Morro Dois Irmãos, Pedra da Gávea, Enseada de Botafogo, morros do Jardim Botânico e assim por diante.
A perspectiva de Nilton Bravo é totalmente irreal, sempre. Não há possibilidade de que todos esses acidentes sejam vistos de um único ponto (a não ser que você esteja no avião, olhando a cidade de cima, como Tom Jobim - quando compôs, claro, o "Samba do Avião).
Botequins são instituição em decadência, nestes tempos de fast-food. Nilton Bravo recolheu-se. Os donos do Pirajá acharam que havia morrido. Queriam transportar um painel seu, do Rio para cá, e, ponte aérea, foram ao balneário para a pesquisa e consequente negociação. Puseram anúncio no jornal: quem dispusesse de algum quadro do artista, que quisesse vender... nem que houvesse necessidade de trazer a parede.
Mas apareceu alguém que conhecia Nilton Bravo e os levou a ele. Recolhido, velhinho, o Michelangelo dos botequins pintou a imaginária paisagem da Baía de Guanabara que enfeita uma das paredes do Pirajá.
Fundado o botequim, a turma do samba começou a aparecer. Moacyr Luz foi dos primeiros. Levou Luís Carlos da Vila, Carlinhos Sete Cordas; Nei Lopes deu as caras, a roda de samba podia muito bem começar à tarde e varar a madrugada. Beth Carvalho, fazendo sempre show em São Paulo - a cidade que melhor recebe o samba, por sinal, melhor mesmo que o Rio -, passou a aparecer depois das 3, como é de seu jeito.
Roda de samba - Então, quase todos os elementos estavam dispostos: a mesa do botequim, a roda de samba, o ambiente feito na medida, o público admirador. Foi questão de transportar a festa para uma casa maior. A Tom Brasil recebeu, naquele 24 de março, 1,2 mil pessoas. Voltou gente da porta.
Só mesmo o disco para ampliar o universo de ouvintes do encontro. Questão de levar as fitas para estúdio, limpar os ruídos mais exagerados, caprichar na mixagem, porque com aquela turma não tem erro. Tudo de prima - de primeira, na gíria dos músicos - e certíssimo.
O grupo todo canta, em uníssono, a primeira faixa: "Me apaixonei/ Pela filha do macumbeiro/ Não saio mais da curimba/ Não saio mais do terreiro" - para, acompanhando-se com palmas, entrar no "Patrão, Prenda Seu Gado", de Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Entram então os instrumentos, para acompanhar Moacyr Luz em "Jogo Rasteiro", dele e de Nei Lopes, avisando o que vem: "É na ginga que o bom mandingueiro/ Vai ganhar, devagar, tempero."
Expostas as cartas, Moacyr pergunta (no samba dele e de Aldir Blanc) "Por Que Pedir Perdão?" Walter Alfaiate responde com Olha Aí", de Mical e Miúdo, e segue com "A.M.O.R. Amor", dele e de Mauro Duarte, saudoso Mauro Bolacha, espécie de pai espiritual de todos os sambistas de Botafogo, bairro que é também de Alfaiate.
Luís Carlos da Vila dá continuidade à festa com a maravilha que é Além da Razão", dele, de Sombra e Sombrinha ("Do vulgar fiz um rei/ E do nada o império pra te dar"), emenda em Doce Refúgio, só dele. Passa a bola para João Nogueira, que emenda dois hinos, escritos com Paulo César Pinheiro: Minha Missão e Espelho".
Dona Ivone Lara pega a bola com "Axé de Ianga" e "Candeeiro da Vovó" (a última com Délcio Carvalho), a turma volta reunida para cantar a "Exaltação à Mangueira de Aluísio Augusto da Costa e Enéas Brites e fazer introdução para Beth Carvalho exaltar a Mangueira em "Folhas Secas", de Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Isso é um pouco do disco, que tem muito mais. Imperdível, impagável.

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