O melhor de macalé
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quinta-feira, 12 de novembro de 1998
Mauro Dias Agência Estado 
Jards Anet da Silva, que todos conhecem como Jards Macalé, proto ou paratropicalista, como os revoltados, irados, desbocados, bem-humorados dos anos 60, manteve longa e pródiga correspondência (e relação de amizade) com o cineasta Gláuber Rocha, um dos que ostentariam, tempo houvesse, os proto-para-tropicalismo (Caetano Veloso o diz, em sua biografia tropicalista). Melhor, assim, que Macalé tenha podido abrir seu primeiro disco em quase 20 anos com um maracatu marchado, meio hino cívico, meio religioso, que assina o diretor de Terra em Transe.
Chama-se, a peça, Rei de Janeiro, e versa: Idolatrada mãe a quem recorro/ Toda vez ameaçado pranto/ Paraíso São Sebastião/ Rei de Janeiro. É um hino, triste, para a cidade elíptica dos versos, para o País que a contém e se deixa traduzir por ela, com vocal de As Gatas, grandes pastoras do samba. É uma das pérolas de O Q Eu Faço É Música, lançamento da gravadora Atração. Valeu esperar.
Mesmo que O Q Eu Faço É Música seja um disco de regravações, que emenda em Rei de Janeiro o clássico Favela, de Padeirinho e Jorginho (É aí que o lugar/ Então passa a se chamar/Favela). Mas é uma gravação de Macalé. A guitarra de Lanny Gordon invade o coral da velha-guarda da Portela, encorpado por Monarco e Christina Buarque, a percussão de Ovídio e Gordinho forjam o disparo de metralhadoras. Você nunca ouviu esse samba dessa forma.
Macalé foi buscar no baú parcerias com Torquato Neto, o grande poeta do tropicalismo, dois números exemplares da poesia da tristeza profunda que lhe habitava a alma - um belo dia, Torquato suicidou-se, embora não por motivos amorosos: Destino (O destino do poeta é coisa dele) e Dente no Dente (Olho no olho, dente no dente/ Lentamente, é nessa hora a hora/ Que eu vejo o fim do fim de tudo).
Recuperou clássicos seus: Movimento dos Barcos, uma das canções mais bonitas da MPB, que tem letra de Capinam (É impossível levar o barco sem temporais/E suportar a vida como um momento além do cais), Vapor Barato, letra de Wally Salomão, antes que a dupla criasse o movimento Morbeza Romântica, infelizmente não representado aqui. Vapor Barato esteve de volta, recentemente, na trilha sonora do filme Terra Estrangeira, de Walter Salles.
Como que a montar seu songbook, trouxe ainda Terceira Vez (dele e de Abel Silva), O Mais-Que-Perfeito (com Vinícius de Moraes), Mais uma Vez (com Xico Chaves). Mandou Mais um Abraço no Nosso Amigo Radamés, lindíssimo choro instrumental com arranjo de (e piano e acordeão tocados por) Cristóvão Bastos, obra-prima, e outro choro, Um Abraço no Oliveira, só com os violões que toca como ninguém. Houve lugar para Sílvio Rodrigues (Unicórnio) e para a emocionante música que fez, sobre poema de Brecht, traduzida por Augusto Boal, para a peça Mãe Coragem: o Poema da Rosa, que Nara Leão, sábia, visionária, gravou há quase 30 anos. Tocando melhor do que nunca, cantando mais do que em qualquer momento, Macalé fez um dos melhores discos do ano.


