‘‘Trata-me por Ishmael.’’ ‘‘Durante muito tempo fui para a cama cedo.’’ ‘‘Sou um homem invisível.’’ ‘‘Hoje morreu minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo.’’ ‘‘Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira.’’ ‘‘Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos. O suficiente para te matar.’’
  O texto aí de cima foi uma colaboração imaginária entre Herman Melville (Moby Dick), Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido), Ralph Ellison (O Homem Invisível), Albert Camus (O Estrangeiro), Tolstoi (Ana Karenina) e Miguel Esteves Cardoso (O Amor é Fodido). Cada um ‘‘cedeu’’ o início de um de seus romances para a formação daquele parágrafo. Dá vontade de ler mais, não dá?
  A reportagem aproveita o clima de Flip (Festa Literária Internacional de Parati) para fazer a seguinte pergunta a alguns escritores: qual o primeiro parágrafo inesquecível da literatura mundial? Perguntinha difícil.
  Para Humberto Werneck, autor de ‘‘O Santo Sujo, a Vida de Jayme Ovalle’’, ‘‘não seduzir o leitor no primeiro parágrafo é como deixar Sherazade ser decapitada pelo sultão’’, referindo-se ao livro ‘‘As Mil e Uma Noites’’. Werneck escolheu o início de ‘‘Áden Arábia’’, do filósofo Paul Nizan, como o seu preferido: ‘‘Eu tinha 20 anos – e não me venham dizer que era uma bela idade’’.
  Autor do ‘‘Almanaque Machado de Assis’’, Luiz Antônio Aguiar revela o início que julga ser o mais arrebatador. ‘‘Não há nada mais certeiro e forte do que o ‘Era uma vez...’. Virou um clichê, mas ainda é incrível.’’ Ainda assim, Aguiar escolheu um clássico, o início de 100 Anos de Solidão: ‘‘Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo’’.
  O poeta Maurício Duarte dos Santos, autor do livro ‘‘Rumor Nenhum’’, falou sobre a dificuldade de se escolher apenas um início inesquecível. ‘‘É sempre injusto escolher um só, mas quando penso num começo de livro, é sempre este que me vem à cabeça. Talvez pelo contraponto da síntese: Anna Karenina é uma obra monumental em todos os sentidos, inclusive em número de páginas, e seu autor Tolstoi consegue definir, nestas primeiras linhas, com um incrível poder de concisão, tudo o que virá depois. O início de Anna Karenina é assim: ‘‘Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira’’.
  Mas nem só os clássicos foram lembrados. O escritor Marçal Aquino, autor de livros como ‘‘Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios’’, surpreendeu na escolha. ‘‘Acho que vale a pena mencionar um primeiro parágrafo não tão conhecido assim, e contemporâneo. Quem sabe leitores que ainda não tomaram contato venham a conhecer uma prosa de alta voltagem. Falo de ‘Os Suicidas’, do argentino Antonio Di Benedetto. Sinta a força: ‘‘O meu pai pôs fim a sua vida numa tarde de sexta-feira. Tinha 33 anos. Na quarta sexta-feira do próximo mês eu terei a mesma idade’’.
  Mário Prata vai pelo mesmo caminho de Aquino e escolhe um livro que não costuma freqüentar esse tipo de lista, o ‘‘Um Assassino Entre Nós’’, da inglesa Ruth Rendell. ‘‘A minha escolha nem precisa de muita explicação: ‘Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever’’’.
  Entre os entrevistados só João Gilberto Noll, autor de ‘‘A Máquina de Ser’’, ‘‘A Céu Aberto’’ e outros, garantiu que não tem nenhuma preocupação com inícios mirabolantes e marcantes. ‘‘Eu acho que os meus livros têm que começar do jeito que eu acho que eles têm que começar. Não me preocupo com isso. Não penso em chamar atenção assim. Embora admire muitos inícios.’’
  Mesmo assim, Noll escolheu o seu começo inesquecível. Trata-se de ‘‘O Tambor’’, de Gunter Grass: ‘‘Admito: sou interno de um hospício. Meu enfermeiro está me observando, quase nunca tira os olhos de mim; porque na porta há um postigo e os olhos do meu enfermeiro são desse castanho que não consegue penetrar o azul dos meus’’.

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