O melhor da música brasileira em vários sotaques em lançamentos e relançamentos
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terça-feira, 10 de agosto de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 11 (AE) - Tão rica em sotaques, novidades e história, a música brasileira nem agoniza nem vai morrer, mesmo que esteja longe - a música boa está longe - dos holofotes. Lançamentos e relançamentos recentes o atestam. Completando 18 anos de carreira, a paulista Vânia Bastos lança, pela Play Arte, o CD "Belas e Feras", só com músicas assinadas por mulheres, de Fátima Guedes (Namorado) a Lucina (Rosa Cálida, parceria com João Gomes), de Dona Ivone Lara (Não Chora, Neném) a Klébi Nori (Nada Amor, com Eduardo Gudin).
Já foi dito que é um trabalho de "apelo pop" - pois inclui autoras de sotaque pop. Mas o que vem à lembrança e à emoção são aqueles discos em que Nara Leão desafiava limites (pioneiramente gravando Roberto Carlos, por exemplo) para ir buscar pérolas onde quer que elas estejam. "Belas e Feras" atesta a maturidade de Vânia. Ela está, e não é de hoje, na categoria dos que podem escolher o que cantar - desde que seja ela cantando, será bom, muito bom.
Segurança e confiança na pontaria saltam aos ouvidos logo na primeira audição de "Pérolas aos Povos" (Universal), excelente novo disco da maranhense Rita Ribeiro, a mais sólida personalidade feminina da nova música do Nordeste, também compositora - é ótimo o arrasta-pé, dela e de Zeca Baleiro, "Tô", que abre o disco, e melhor ainda "Na Gira", só dela, dedicada a Clara Nunes e Clementina de Jesus. No meio de campo, outras criações dela, uma linda canção de Chico César (Pensar em Você), novidades Zeca Baleiro e mais novidades de nomes que Rita
bravamente, vai revelando. Bravo! Memória - Resgate de memória recente: com o original, em LP, há muito tempo esgotado, chega ao CD a festa brasileira "Marionetes", de Francisco Mário, o grande violonista e compositor armorialista, irmão de Betinho e Henfil. É uma espécie de teatro musicado, sobre Brasil e brasileiros, alegrias e mazelas, com participação de Robertinho Silva, Mauro Senise, David Chew, Pascoal Meireles, Afonso Machado, Bartholomeu Wiese. Peça pelo telefone (021) 558-8917.
Aplausos também para o relançamento de "A Paixão de V Segundo ele Próprio", do gaúcho Vitor Ramil, um dos mais interessantes compositores dos anos 80. "A Paixão.." é de 1984 e estava fora de catálogo. Músico e poeta mais sofisticado do que os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, Vitor ficou, imerecidamente, à sombra deles. Quinze anos depois, "A Paixão..." é um disco moderno, de brilho intocado, trabalho que
como toda boa arte, melhora com o tempo. Relançamento independente. Ligue para (021) 542-5956.
Memória um pouco mais antiga em mais dois títulos da gravadora Revivendo: "Gotas de Ouro", com o bandolinista Déo Rian, e "Saudade da Professorinha", com Ataulfo Alves. Sucessor de Jacó do Bandolim no conjunto Época de Ouro, o carioca Déo Rian mostra sua arte em 23 faixas, juntando dois de seus discos: Ernesto Nazareth, de 1970, em que está acompanhado pelo quinteto Villa-Lobos e pelo Quarteto de Cordas da UFRJ, e "Saudades de um Bandolim", com o mesmo Quinteto Villa-Lobos, obras-primas.
O disco do mineiro Ataulfo (de Miraí, Zona da Mata) reúne, principalmente, gravações originais dos anos 50, de "Laranja Madura" a "As árvores Morrem de Pé", e "Meus Tempos de Criança", samba do qual sai a frase que dá título ao disco. A música, na voz do autor, não tem o tom lacrimoso que foi ganhando nas rodas de seresta - curiosidade a mais. Climas expressivos - A gravadora CPC-Umes lança o segundo volume da coleção "Música do Cinema Brasileiro". Desta vez, a contemplada é a trilha de Luiz Henrique Xavier para o filme "Feliz Ano Velho", trabalho que junta programação eletrônica e sons acústicos, de climas intensos e expressivos. São adjetivos que merece o novo trabalho do contrabaixista Yuri Popov, um mineiro de brilhante inteligência melódica e harmônica - um compositor de rara inspiração. Confira em seu novo CD, "Era Só Começo...", em que um curioso personagem musical vai contando - sem palavras - sua viagem pelos brasis, com participações de Lena Horta, Carlos Malta, Chico Pupo, Téo Azevedo. Editado com o apoio da Secretaria de Cultura de Minas Gerais.
Bissamblazz é o nome do grupo do baterista Magno Bissoli como "Ensemble Brasileiro" (informe-se no site http://wwwaudiomobile.com.br). À moda de Kruppa, Magno lidera big band em Abracadabra, em que os arranjos (de Mozar Terra, Hudson Nogueira e do líder) demonstram influência de Hermeto Pachoal, a quem é dedicada uma das faixas. A influência de Hermeto surge também no muito bom "Capitão Nemo no Forró de Todos os Tempos", de Sérgio Basbaum, disco muito elaborado do guitarrista, que conta com participações de Teco Cardoso, Toninho Ferragutti, Swami Jr., Benjamin Taubkin e outros bambas da música de Sampa. Lançamento da Mix House (011) 282-7567. Música contemporânea, que absorveu jazz e bossa nova e criou linguagem urbana de registro sério e inovador.
Urbana e contemporânea é a música do Pagode Jazz Sardinhas Club, turma do Rio de Janeiro: flauta de Eduardo Neves, bandolim de Rodrigo Lessa, trombone de Roberto Marques, violão de Lula Galvão, baixo de Edson Menezes, percussão de Xande Figueiredo e Marquinhos Esguleba - outra vez, o fino da turma disponível, agora do balneário. Choro e samba, maxixe, toque moderníssimo, linguagem de evolução, gafieira dos dias de hoje. Mais um independente. E-mail para xandefig.ruralrj.com.br.
Em dose dupla, o violeiro Téo Azevedo apresenta "Solos de Viola" (com Gedeão da Viola) e "Cantador de Alto Belo", duas produções alternativas, com distribuição da Eldorado e vendas pelo telefone (011) 254-6839. Pagodes, chamamés, cateretês, toadas, lundus, vaquejadas, toadas de reis, chulas, valsas, batuques, calangos, modinhas, valseados, cordéis, tudo o que é, de fato, música caipira, ê, nós.


