O meio ambiente sob vários ângulos
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terça-feira, 11 de junho de 2002
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Goiás Velho - Existem várias maneiras jocosas de definir um filme ambiental. Chato, ruim e de estética duvidosa, são algumas escolhidas como exemplo pelo presidente da quarta edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica), Nelson Pereira dos Santos. O cineasta rapidamente complementa que as piadas sobre o gênero cinematográfico paradoxalmente tão específico quanto amplo estão sendo colocadas em xeque pelo bom nível de filmes apresentados no festival. O Fica acontece anualmente na cidade de Goiás Velho, a 135 quilômetros de Goiânia (GO). A sua quarta edição encerrou no domingo distribuindo cerca de R$ 250 mil em prêmios.
Durante os cinco dias do Fica foram exibidos 49 produções, entre curtas e longas-metragens, animações, documentários e série de TVs. As produções foram selecionadas entre quase 500 inscrições. Nenhuma delas paranaense. A cerimônia de encerramento reuniu quase duas mil pessoas no Ginásio de Esportes da cidade histórica, transformado em sala de exibição durante o evento.
O grande vencedor desta edição do festival foi o documentário Herdsman (2001), produção chinesa do diretor Chen Jian Jun que mostra as migrações de uma família em Xianjiang, na China. O longa recebeu o Trófeu Cora Coralina, além do maior prêmio do Fica, no valor de R$ 50 mil, conferido para a obra de maior destaque no festival. O documentário Tong Tana, dos diretores suecos Jan Röed, Erik Pauser e Björk Cederberg foi considerado o melhor longa exibido no evento e recebeu o Troféu Carmo Bernardes, no valor de R$ 35 mil. Tong Tana retrata a destruição da floresta tropical mais antiga do mundo.
O troféu Jesto Von Putkamer, que premia o melhor média-metragem com R$ 25 mil foi concedido ao filme Ape Hunters (2002), do diretor americano Jeremy Bristow. O média, um documentário feito para a BBC de Londres, mostra como os grandes gorilas da África Central estão sendo caçados e ameaçados de extinção.
Pela reação do público durante sua exibição, também não foi nenhuma surpresa na cerimônia de encerramento, a premiação do melhor curta-metragem, concedido ao filme A Canga (2001), do diretor paraibano Marcus Villar. A Canga tem 12 minutos de duração e narra a história de um velho agricultor que obriga os dois filhos, a mulher e a nora a puxar uma canga de bois. O roteiro foi baseado no texto do escritor W.J. Solha e tem fotografia assinada por Walter Carvalho (Central do Brasil)
O árido sertão nordestino no ângulo de Carvalho confere ao filme um lirismo ímpar. Realizado no formato 35 mm, o curta-metragem já ganhou 18 prêmios em outros festivais nacionais. No Fica, recebeu o Trófeu Acary Passos, além de prêmio de R$ 25 mil e mais Trófeu Imprensa.
A melhor série ambiental de TV (Troféu Bernardo Elis, no valor de R$ 25 mil) ficou para a produção de Singapura Indonésia: Beyond the Reef (2001), do diretor Robert Chappel. O documentário de 30 minutos mostra as aventuras dos Parques Marinhos da Indonésia. O Fica também premia duas produções goianas, com R$ 40 mil cada uma e o troféu José Petrillo. Este ano, os vencedores foram Barrados e Condenados (2001), uma co-produção entre o Brasil e Inglaterra do diretor Adrian Cowel e a animação Alternativas (2002), de Dustan Oeven.
A atriz Glória Pires participou da cerimônia de encerramento e foi homenageada pelo evento. Sou casada com um goiano (Orlando Morais), a minha relação com o estado é grande, brinca Glória. Morais apresentou o repertório de seu último disco durante o evento, na Praça do Chafariz.
A estimativa da organização é que nos cinco dias do Fica, cerca de 200 mil pessoas passaram pela cidade. Representantes dos quase 50 filmes da mostra competitiva estavam presentes. Para o presidente dessa edição, a intensa participação dos cineastas, produtores e do público revela a força do cinema ambiental. É uma temática muito ampla, admite. O cinema ambiental é aquele que apresenta uma possibilidade de discussão sobre o que acontece no ambiente, define.
O diretor de filmes como Rio 40 Graus (1955); Mandacaru Vermelho (na década de 60) e Como Era Gostoso o Meu Francês (1970) argumenta que não bastam as produções serem tecnicamente (ou ecologicamente) corretas, mas serem cinematograficamente bonitas e apresentarem uma expressão estética de qualidade. Senão não é cinema, diz.
Ele promete discutir mudanças necessárias para o próximo ano, como a miscelânea de eventos que se integram ao Fica. Além da projeção dos filmes em praça pública, no ginásio e no Cine Teatro São Joaquim, eventos paralelos acontecem diariamente, como shows de música e de grupos alternativos que invadem a cidade nessa época. O resultado é uma poluição sonora altíssima, que decididamente não combina com um evento que se propõe a discutir questões ambientais. As festas na cidade se comparam a um carnaval fora de época. Milhares de jovens invadem as históricas ruas de pedra durante o evento. Sem dúvida acontece uma agressão visual e uma agressão ao ambiente, admite Santos prometendo propor alterações à organização.


