Selton Mello em ‘O Mecanismo’: série inflama debates políticos nas redes sociais e ganha mais evidência em tempos de intolerância
Selton Mello em ‘O Mecanismo’: série inflama debates políticos nas redes sociais e ganha mais evidência em tempos de intolerância | Foto: Reprodução



A série "O Mecanismo", criada por José Padilha e Elena Soárez, estreou na Netflix chamando mais a atenção, no fim de semana, do que a saraivada de ovos que o ex-presidente Lula levou em cidades do RS e SC na sua peregrinação pelo sul do País. O motivo é que se as manifestações políticas em estados do sul podem ser creditadas a grupos conservadores - alguns francamente ligados ao deputado Jair Bolsonaro - a série atrai a atenção de um público diversificado em suas escolhas políticas, voltado às atrações e manifestações culturais que incluem pacotes pagos de TV, plataformas de streaming e militância nas redes sociais.
A série em questão é uma leitura dramatizada da Operação Lava Jato, como deixam claro seus autores e diretores numa mensagem de abertura que acompanha todos os episódios. Trata-se, portanto, de uma obra de ficção, embora o tema acenda o rastilho de pólvora que hoje permeia qualquer discussão no âmbito dos dramas policiais que incorporem embates ideológicos. Com isso, o Brasil se vê no espelho da telinha e fica irado.

Um pedido de cancelamento em massa da assinatura da Netflix partiu de Pablo Villaça, militante petista e crítico de cinema, que se irritou com o conteúdo da série e espalhou o apelo de cancelamento aos leitores de sua página na rede. Seguiram-se abaixo-assinados, além de manifestações no Twitter e Facebook, que se assemelham às campanhas de censura àquela performance de Wagner Schwartz no MAM – com o artista nu – à Mostra Queer Museu, em Porto Alegre, e às tentativas de boicote ao espetáculo "O Evangelho de Jesus – Rainha do Céu", com a atriz transsexual Renata Carvalho que foi alvo de protestos, inclusive em Londrina, onde o monólogo estreou no Filo, em 2016.



Em matéria de boicote ou censura a obras artísticas, grupos de direita e esquerda empatam na intolerância, ainda que os discursos procurem às vezes dourar a pílula com argumentos que não resistem ao menor sopro de civilidade.
No caso de "O Mecanismo" não faltam acusações de que a produção criada pelo premiado cineasta José Padilha ("Tropa de Elite" e "Narcos") , não tem "compromisso com a realidade", numa demonstração de que o drama político ficcional atinge convicções que também não passam de "narrativas" acerca do processo que tem varrido o país com a atuação da Lava Jato.

De narrativa em narrativa, uma ala justifica o racha do PT com o PMDB como um "golpe" nacional, proclamado em festivais de cinema europeus – para inglês ver - nos quais elencos inteiros fizeram manifestações pró-Dilma sem serem incomodados com campanhas de difamação de seus filmes. Por outro lado, quando um seriado não se afina com a ideologia de quem sempre quis abarcar a liberdade de expressão como bandeira, não faltam críticas que atropelam qualquer tentativa de bom senso. Por exemplo, na série, o personagem que faz alusão a Lula repete uma fala que ecoou nacionalmente como sendo dita por Romero Jucá no auge da crise: "Precisamos estancar essa sangria". Isso bastou para que a militância repetisse incessantemente que "Lula nunca disse isso", numa confusão clara entre realidade e ficção. O episódio lembra as acusações sem fundamento quando se trata de lugares-comuns. "Estancar a sangria" é uma dessas expressões usadas para definir qualquer processo onde haja excesso, descontrole, incluindo a corrupção deslavada, mas não apenas isso. "Estancar a sangria" é um clichê similar a "fazer das tripas coração" ou "cair do cavalo".

Sobre isso, o diretor José Padilha afirmou em entrevista: "Essa turma não entendeu que a série é uma crítica ao sistema como um todo e não a esse ou àquele político ou a qualquer grupo partidário. Por isso se chama 'O Mecanismo.' Assim, misturar falas ou expressões de um político-personagem que o público pode confundir quem falou não tem a menor importância, pois são todos parte do sistema."
O problema é que neste momento de provocações ideológicas, passamos uma peneira de censura cotidiana em cada expressão ou posição tomada. O que causa no país um clima de intolerância.

Enredos explosivos
Para quem gosta de filmes policiais ou filmes sobre a máfia, "O Mecanismo" é uma série que contempla a preferência por enredos explosivos. O que não se pode é tomar ao pé do "realismo ideológico" uma obra de ficção sobre um episódio nacional que decerto ainda vai render livros, séries e filmes, sem que isso precise ser entendido como um registro documental.

A série "The Crown" expõe conflitos íntimos e até sórdidos da família real britânica, pintando o príncipe Philip, marido da Rainha Elizabeth, como um playboy que não se privava de aventuras na juventude. "House of Cards" mostra jogos de poder relacionados à política norte-americana contemporânea, incluindo a vergonhosa manipulação entre os congressistas. Em nenhum desses países, enredos pescados na realidade para compor um drama ficcional motivaram campanhas de cancelamentos de assinaturas de serviços de streaming, o que indica que o Brasil, neste momento, está longe de um pacto de civilização que abarque obras artísticas, com conteúdo crítico, sem ofender a grupos ideológicos à direita e à esquerda.

De qualquer forma, o que deve incomodar os militantes não é a realidade ser tomada como tema artístico, mas sim a realidade política do País extrapolar qualquer ficção quando o tema é a corrupção que uns empurram para os outros, fazendo de conta que não participaram do banquete, quando a série coloca na mesa os vários comensais da farra política que acabou no que sabemos. No Brasil, não se lavou apenas dinheiro, existe a tentativa de uma franca lavagem de cérebros para que tudo obrigatoriamente reluza como o "ouro da democracia", inclusive nas séries.

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