Célia Musilli
De Londrina




‘‘Foi divertido viver, deixei correr à minha maneira, salvo naturais explosões’’ (Pietro Maria Bardi - 1900-1999)



Agência Estado

Pietro com Lina Bo Bardi, sua esposa e arquiteta que construiu o Masp

Agência Estado

Em 90, cercado pelos amigos e artistas plásticos Wega Nery, Tomie Ohtake e Wesley Duke Lee

Pietro Maria Bardi morreu na madrugada de ontem, em São Paulo, pouco antes de completar 100 anos, em fevereiro de 2000. O Museu de Arte de São Paulo - Masp - que ele ajudou a criar, já havia programado uma série de eventos para comemorar o aniversário do homem que ajudou a formar o que, ainda hoje, é considerado o melhor acervo de artes plásticas do País. A fama de temperamental acompanhou Bardi durante toda a vida. Desde os anos 40, quando confabulava com o lendário diretor dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, para comprar na Europa telas de pintores famosos para formar o acervo do Masp, Bardi batia duro para conseguir o que queria, disputando com marchands do Primeiro Mundo a primazia na obtenção de quadros famosos. O faro especial para descobrir raridades e comprá-las a preços módicos - aproveitando-se da situação precária da Europa no pós-Guerra - deu a ele a fama de enganador. Havia quem duvidasse da originalidade das telas que ele incorporou ao acervo do Museu de São Paulo (leia texto nesta página). Mas foi graças à sua habilidade que o Masp incorporou ao acervo quatro telas de Van Gogh, 13 quadros de Renoir, 743 esculturas de Degas e, o que parecia impossível, uma obra de Rafael.
Um traço polêmico de Bardi era sua admiração confessa por Benito Mussolini, com quem manteve amizade. Mas sua face insubordinada também se fazia presente toda vez que se indignava com o que considerava absurdo. Nos anos 80, quando ainda dirigia o Masp com mão de ferro, implicou com uma pichação política feita na fachada do museu e sobre ela escreveu a palavra ‘‘merda’’. Foi preso e só não sofreu condenação porque tinha 70 anos. Anárquico, comentou depois do episódio. ‘‘Que bom, posso continuar a escrever merda.’’ E seguiu até o fim da vida fazendo o que bem quis porque assim era Bardi: um homem livre, embora controverso, que no limiar dos 100 anos ainda fazia planos. Sua grande lição foi acreditar na utopia e levá-la às últimas consequências como fez ao idealizar e construir o Masp.

mockup