Kraw PenasFernanda Ester: ‘‘Nossa preocupação é ver se esse discurso vai melhorar a urbanidade das periferias e região metropolitana’’Curitiba, a festejada cidade-modelo, corre o risco de se transformar na matéria bem acabada de um grande discurso oficial. Os mais variados setores da sociedade repetem a mesma ladainha sobre as qualidades curitibanas, lendo a cartilha sugerida pelo marketing. A prática ufanista acaba sendo perigosa, pois anula a pluralidade, elemento mais que necessário para uma vida comunitária saudável .
Outro fator caracteristicamente curitibano e preocupante é que a imagem paradisíaca da cidade está fundamentada num conjunto de mitos urbanos amparados na parcialidade. Aquilo que o Brasil e o mundo conhecem é a face luminosa de uma realidade que tem seu lado escuro e problemático, mas neste caso deliberadamente ignorado. Essa posição tem de ser revista sob pena do abismo social ampliar-se cada vez mais, gerando consequências das mais diversas.
As conclusões acima estão no livro ‘‘Cidade Espetáculo’’, da professora Fernanda Ester Sánchez García, resultado de uma tese de mestrado defendida ano passado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Editado pela Palavra Editora, de Curitiba, teve seu lançamento ontem, na Livraria Curitiba, da Boca Maldita.
O estudo de Fernanda, arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal do Paraná, com passagens pela Universidade Estadual de Londrina e UFPR, onde deu aulas, fez parte inicialmente do volume ‘‘Percepção Ambiental: A Experiência Brasileira’’, coletânea de 13 ensaios, publicada em 1996 pela Editora Studio Nobel.
Ali, especialistas vinculados a diferentes universidades, trabalharam com o objetivo de avaliar a percepção do espaço por parte da população. Na época o conjunto de trabalhos foi premiado na categoria Pesquisa e Crítica, pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil.
‘‘Cidade Espetáculo - Política, Planejamento e City Marketing’’, com 166 páginas, é dividido em seis capítulos. O primeiro, ‘‘Curitiba Revisitada’’, aborda a unanimidade em torno da idéia da ‘‘cidade que deu certo’’ e outros mitos. O restante do volume aprofunda a discussão até chegar no último capítulo, ‘‘Reorganização do Espaço Metropolitano e Marketing Territorial: o Caso da Grande Curitiba’’.
Nele a autora coloca em cena as atuais transformações que o município passa a sofrer com a chegada das montadoras de veículos, e o papel das Ongs ambientais. A implantação de grandes indústrias na região metropolitana, como é o caso da Renault em São José dos Pinhais, acabou por gerar um novo discurso, o da metrópole.
‘‘A nossa preocupação é ver se esse discurso vai se desdobrar num compromisso de melhorar a urbanidade das periferias e região metropolitana’’, comentou a arquiteta em entrevista à Folha2. Se isso não ocorrer, o bolsão de pobreza que hoje cerca Curitiba, se tornará ainda maior. Acontecerá de vez o inevitável - será o inferno abraçando o paraíso.
O que levou a senhora a escolher o marketing de uma cidade para sua tese?

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