Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
A fase popular da 18ª Oficina de Música de Curitiba faz descer ao Sul o último representante da velha guarda do samba carioca. O venerado ícone do samba de raiz, Nelson Sargento, chega a Curitiba para ministrar oficina sobre Composição Popular a partir de sexta-feira, proferir palestra/bate-papo no dia 24, no Colégio Estadual do Paraná e, no dia 29, às 21 horas, participar do show de encerramento da Oficina, no Teatro da Reitoria.
O compositor, pintor e ator Nelson Sargento falou por telefone com a Folha2 e sugere que o público prepare-se para perguntar. Ele pretende falar sobre a origem do samba, suas parcerias, modismos, grandes e novas gerações de compositores e sobre sua vida de sambista da velha guarda. Ninguém melhor do que ele.
Sua vida de músico começou aos dez anos quando subia o morro ao lado da mãe e paravam para ouvir os ensaios da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro. Nessa época, Nelson Sargento era Nelson Mattos e morava na Tijuca. Pouco tempo depois, ganhou um padrasto português que usava tamancos, compunha fados e pintava paredes. Depois do exército, foi que ganhou Sargento no nome. Mas poderia ser Marechal, uma vez que esta é a sua patente no samba.
A família mudou-se para o morro da Mangueira. O padrasto Alfredo Português encontrava-se com os sambistas e tirava os tamancos. Alí mesmo compunham sambas com o instrumento lusitano. Mais tarde, seu parceiro predileto era o enteado com quem compôs mais de 200 sambas, que foram gravados por Elizeth Cardoso, Jamelão, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, entre outros.
Entre os sambistas da Mangueira, Sargento ganhou colo para as primeiras notas do violão de Agenor de Oliveira - Cartola -, Nelson Cavaquinho, Aluizio Dias, Geraldo Pereira, Carlos Cachaça. Não dá para dizer que não teve bons professores, nem que os tenha decepcionado.
Em 1948, Nelson Sargento ganhou o concurso para o samba enredo da Mangueira em parceria com o padrasto. Ainda nessa época, Sargento pintava paredes para fazer algum dinheiro. Com o samba não sobrevivia. Mas, Nelson não guarda ressentimentos. Também não deixa de ser um pouco irônico quando fala do samba comercial. ‘‘Mas tudo isso é samba, tem o samba como base’’, refere-se ao pagode em moda por todos os cantos do País. ‘‘São modismos, como já foi a bossa-nova, agora é o pagode, também, as subdivisões de tempo do samba. 4x4, 2x2 ou 2x4 não altera a estrutura do samba’’, reconhece.
Mas a carreira de Nelson Sargento não pára por aí. Além de toda essa energia que não tem fim, o sambista, sobressai-se como pintor e ator. Seus quadros têm os temas de suas músicas: samba e morro. Já participou de diversas exposições e como ator foi dirigido em vários filmes e clipes.
Sobre os compositores que seguem a escola do samba e raiz, Nelson Sargento cita Jurandir, Hélio Turco, Comprido e Darci. ‘‘Estes estão na faixa dos 50 anos. Mas há os mais novos como Tuninho Gerais, Marquinhos de Oswaldo Cruz e o ídolo do samba de batida, Zeca Pagodinho. Mas, o que ainda vai dar muito o que falar é o Dudu Nobre, de apenas 19 anos. Este é o mais novo da escola do Zeca’’, afirma.
‘‘Os meios de comunicação não estão abertos para o samba de raiz’’, reclama. As exceções ficam por conta de alguns radialistas. No entanto, para os sertanejos e para o pagode não falta espaço. Nós, sambistas, vamos só para a noite mostrar nosso trabalho. Mas o pagode, passa. Isso é mania de recriar e vai acabar no descaso. Isso não acontece com o samba. Nós temos raiz.’’
Nelson Sargento: Oficina de Composição de Samba, a partir do dia 21. Bate-papo, no dia 24, às 19h15, no auditório do Colégio Estadual do Paraná. Show de encerramento, em homenagem aos grandes mestres do samba e do choro, às 21h do sábado, dia 29, no Teatro da Reitoria. No dia 30, haverá um grande show, também de encerramento, com os alunos das oficinas, no Memorial de Curitiba.

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