A estalagem melhor para os sentimentos é a alma. Quanto mais humilde as acomodações, mais à vontade as emoções transitam pelos quartos, alguns sob claridade intensa e outros na profunda escuridão. Aposentos que o espetáculo dos londrinenses do grupo Noisette, radicados na Bélgica, visitam hoje e amanhã na programação do 40º Festival Internacional de Londrina (Filo).
É com o olhar de imigrante que o grupo olha as paredes das emoções e a memória pintadas pelas londrinenses Karen Debértolis (escritora) e Fernanda Magalhães (fotógrafa), no livro ''Estalagem das Almas''.
A diretora do espetáculo, Maria Fernanda Coelho, considera um privilégio a oportunidade de voltar para casa, Londrina e o Filo. Ela participou durante muitos anos da organização do festival, tendo integrado também o antológico grupo londrinense Proteu.
''Tem um significado grande. Aprendi muito com essa escola, com a mestre Nitis Jacon. Uma história que não se esquece, não apaga. Eu não deixei de ser quem sou lá fora porque essa é uma história de conquista. Estar no Filo, na edição comemorativa, é a mesma coisa que voltar para os braços da mãe. Vejo também que estou numa grade de programação ao lado do Odin Theatret, Peter Brook. O Filo faz parte da minha história. Comecei a trabalhar no festival aos 17 anos, vendo o mundo se abrir. Naquela época não podíamos ver o mundo e hoje, o mundo vem até a gente. Me sinto muito honrada'', avalia Maria Fernanda.
A diretora conta que, há algum tempo, queria realizar um trabalho com Debértolis. O projeto se concretizou a partir de uma linha de apoio à imigração, em vários países europeus, como a Bélgica. A montagem conta com a produção de Kopespel, Federacion Latinoamericana e Teatro Rataplan.
''Queríamos retratar a nossa condição. Ser de um país distante não é fácil. Você fica mais fragilizado. A Lili (atriz Lili Almeida) veio ao Brasil e levou o texto para nós e dissemos: ' É isso aí que queremos montar'''. lembra Maria Fernanda.
Para a diretora continua sendo um desafio adaptar um livro sem emprestar dele a palavra.
''A obra literária nos dá impulso, cor e sem a palavra tudo se torna mais difícil'', acrescenta, dizendo que algumas imagens da artista plástica Fernanda Magalhões estão no espetáculo.
Cada um dos cinco integrantes do elenco desembarcou em um país da Europa até que todos se uniram na Bélgica, vivendo exclusivamente de teatro.
''Eu fui visitar o Alyson (Alyson Pedrão, assistente de direção da peça) e adorei a Bélgica. Acabei decidindo ficar. É mais fácil quando você está junto no exterior. Foi a primeira vez que vi que tinha um amigo lá. Depois se juntaram a Fernanda, a Gessica Arjona e o Luiz Renato Ferreira''.
''Além Mar'' é percorrido pelo elenco como se fosse um jogo de amarelinhas: os 13 quartos de uma estalagem de muitas histórias. Um lugar que só existe porque a alma é grande.

mockup