O MAIS NOVO IMORTAL
Paulo Polzonoff Jr
De Curitiba
Especial para a Folha2
Roberto Campos foi eleito no último dia 23 para a cadeira nº 21 da Academia Brasileira de Letras. O diplomata e economista ocupa a vaga que era de Dias Gomes, morto no dia 18 de maio deste ano. Na eleição, como sempre secreta, votaram todos os acadêmicos, exceto Jorge Amado, que continua hospitalizado. Roberto Campos tornou-se um imortal por 20 votos a 16, uma votação apertada para um tipo de pleito que quase sempre é vencido pelos concorrentes por unanimidade. Ele derrotou a crítica literária Bella Jozef, que também almejava o fardão.
A Academia Brasileira de Letras elege Roberto Campos como notável, e não como escritor. Pela mesma porta entraram Getúlio Vargas, Oscar Niemeyer e Ivo Pitangui, por exemplo. Com 82 anos, torna-se imortal por sua habilidade política ao longo de 16 anos em que exerceu as funções de deputado e senador, além do inegável talento como articulista econômico, função que exerce semanalmente em diversos jornais e revistas.
Roberto Campos nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1917. Seminarista até os 20 anos, não pôde ordenar-se padre por ter completado o curso antes dos 22 anos. Em 1939, resolveu prestar concurso para o Itamaraty, sendo admitido no mesmo ano. Ainda no primeiro ano de serviço como embaixador, trabalhou na Embaixada do Brasil em Washington. Regressou ao Brasil em 1950, já como assessor de Getúlio Vargas. Neste cargo, foi o responsável pela criação do BNDE (hoje BNDES). Por não concordar com o nacionalismo de Vargas, rompe com o governo. Getúlio Vargas, em retaliação, o envia para o consulado de Los Angeles.
Em 1958, retorna do exílio e, depois de ser um dos formuladores do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, assume a presidência do BNDE. Nesta época recebeu o apelido de Bob Fields. Com a saída de Juscelino, o economista deixa o governo mais uma vez e é nomeado embaixador do Brasil em Washington. Em 1963, por não concordar com o plano de estatização de João Goulart, pede demissão de seu posto.
Em 1964 acontece o Golpe Militar. Assume a presidência o general Castelo Branco, que nomeia Roberto Campos ministro do Planejamento. Juntamente com Golvêa de Bulhões, Campos formula um dos primeiros planos de combate à inflação, dos muitos que se seguiriam até 1994. Como ministro, participa diretamente de criações que perduram até hoje, como o FGTS, a caderneta de poupança, a lei das S.A., a correção monetária, o Banco Central, o BNH e o Estatuto da Terra. Até hoje a Constituição de 1967 é considerada de sua autoria.
Com a entrada de Médici e Costa e Silva, os generais linha dura, Roberto Campos é obrigado a deixar o País, retornando somente no governo Geisel, que o designa para a Embaixada do Brasil em Londres. Em 1982, com 65 anos, deixa o cargo de embaixador para se candidatar ao senado pelo seu estado natal, o Mato Grosso. É eleito senador e dedica toda a década de 80 a combater a política econômica do governo. Em 1990, elege-se deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em 1994 é reeleito. Em 1998, mais uma vez candidata-se ao senado, mas não consegue se eleger.
Em 1994, ele lançou, pela Editora Top Books, suas memórias, intituladas A Lanterna na Popa. O livro recebeu diversos prêmios e foi motivo de disputa dentro da própria Academia. Na época, direita e esquerda se digladiaram em torno do dilema de conceder ou não a Roberto Campos o prêmio José Hermínio de Moraes, de R$ 50 mil. Campos foi derrotado e o prêmio dado a Fernando Moraes, pela biografia do publisher Assis Chateaubriand.





