O mais atormentado dos homens
Escritos de Antonin Artaud”, antologia de textos do escritor francês recebe nova edição
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de maio de 2020
Escritos de Antonin Artaud”, antologia de textos do escritor francês recebe nova edição
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
São poucos os livros de Antonin Artaud publicados no Brasil, mas um deles, “Escritos de Antonin Artaud”, se destaca por oferecer um panorama da obra do escritor francês em todas suas fases. Organizada por Claudio Willer, a antologia foi publicada em 1983 pela editora L&PM.

Passados mais de 35 anos, a L&PM está lançando uma nova edição da obra que só era encontrada em sebos. O volume traz trechos dos principais textos do escritor que influenciaram de maneira determinante o teatro e a filosofia da segunda metade do século 20.
A escrita de Antonin Artaud (1896 – 1948) é caracterizada pelo tom de manifesto e imersa numa atmosfera profética. Com propostas inovadoras e radicais, Artaud defendia que era necessário agarrar a vida com braços, mãos e unhas. Pensava que a vida e as ações, bem como o corpo e o pensamento, deveriam ser soldadas para se tornarem uma entidade unificada.

Em suas palavras, a separação era a origem dos grandes problemas do mundo: “Todas as nossas ideias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E essa penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós, e que não conseguimos mais encontrar nas coisas, reaparece de repente pelo lado mau das coisas. E nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida.”
O fato interessante é que, mesmo tendo escrito apenas meia dúzia de poemas, Artaud se autonomeava poeta. Suas obras completas compreendem seis grandes volumes que englobam manifestos, ensaios, dramaturgias e prosas alucinadas, mas principalmente cartas. Cartas e mais cartas.
“Escritos de Antonin Artaud” traz textos (integrais ou trechos) como “O Teatro e a Peste”, “Surrealismo e Revolução”, “Os Taraumaras”, “Van Gogh: O Suicidado Pela Sociedade”, “Para Acabar Com o Julgamento de Deus”, “Cartas de Rodez”, “O Teatro da Crueldade”, “O Teatro e Seu Duplo”, “Carta aos Médicos dos Manicômios”, “Heliogábalo”, “Para Acabar Com as Obras Primas” e “A Montanha dos Signos”, entre outros.
Antonin Marie Joseph Artaud nasceu em 1896, foi ator de teatro e cinema, mas encontrou sua força de expressão na palavra escrita. Na década de 1920 entrou de cabeça do Movimento Surrealista, mas acabou rompendo com o movimento quando seus integrantes começam a abraçar o marxismo. Para Artaud, o Surrelismo havia se tornado “muito organizado”. De personalidade atormentada, atravessou um verdadeiro calvário em longas temporadas em hospícios e manicômios. Faleceu em 1948, vítima de câncer, num quarto do Hospital Psiquiátrico de Rodez.
A partir do início da década de 1960, Artaud se tornou referência sobre a psicologia da loucura e o entendimento abrangente das doenças mentais. Influenciou toda a filosofia francesa contemporânea. Sua obra foi redimensionada em trabalhos de pensadores como Michael Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Jacques Derrida e Maurice Blanchot. Influenciou também o teatro de Jerzy Grotowski, Peter Brook e Eugenio Barba.
Em seu texto “O Teatro e a Peste”, cria uma conexão entre o teatro e a peste, entre a arte e a pandemia, algo que ganha novas leituras nos dias de hoje: “Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas por ser, como a peste, a revelação, a exposição, a condução para um fundo de crueldade latente pela qual localizam-se no indivíduo ou em povos inteiros, as possibilidades perversas do espírito. Há no teatro, como na peste, um estranho sol, uma luz de intensidade anormal na qual o impossível e o difícil parecem tornar-se elementos normais.”
Muito se fala que Artaud não foi compreendido na época em que viveu, que somente após sua morte sua obra ganhou grandes proporções. O fato é que Artaud encarnou a radicalidade como poucos criadores. Sua existência está repleta de episódios que causaram espanto e reações.
Uma delas aconteceu quando Artaud proferia uma palestra na Universidade de Sorbonne. Na primeira fila da platéia estava a escritora Anais Nin (1903 – 1977). Em seu diário, ela descreveu a atuação de Artaud com as seguintes palavras: “Seu rosto estava convulsionado de angústia e seus cabelos, empapados de suor. Seus olhos dilatavam-se, seus músculos enrijeciam-se, seus dedos lutavam para conservar a agilidade. Fazia-nos sentir sua garganta seca e queimando, o sofrimento, a febre, o fogo de suas entranhas. Estava na tortura. Uivava. Delirava. Representava sua própria morte, sua crucificação. As pessoas primeiro perderam o fôlego. Depois começaram a rir. Assobiavam. Depois, um a um, começaram a retirar-se ruidosamente, falando alto, protestando. Batiam a porta ao sair.”
Por esses e outros feitos, alguns pesquisadores o consideram criador daquilo que conhecemos hoje como “happening”, “performance” e até a “body art”. Em nome da arte, Antonin Artaud levou tudo às últimas consequências, sem limites. Corpo e alma, linguagem e vida, precisavam ser unificados numa única existência.
Serviço:
“Escritos de Antonin Artaud”
Autor – Antonin Artaud
Editora – L&PM
Organização e tradução – Claudio Willer
Páginas – 208
Quanto – R$ 36,90


