Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

Reprodução‘‘Nasce uma Estrela’’ (1955): virtudes de atriz dramáticaJudy Garland é uma das atrizes mais biografadas de Hollywood e, neste último livro, sua vida pessoal parece ser devassada mais do que a de Marilyn Monroe, o que não é dizer pouco. Tudo isso se justifica - se o termo cabe - tendo em vista o papel que ela ainda exerce no imaginário norte-americano, quase 30 anos depois de sua morte. O seu way of life, desregrado, trágico, deve ter sua parcela de responsabilidade na formação do mito.
Mas, para além do desastre que foi sua vida pessoal, fica a intérprete de alguns papéis simbolicamente carregados, um em especial, a Dorothy de ‘‘O Mágico de Oz’’, e a cantora de voz melodramática. No enterro de Judy Garland, um dos amigos presentes disse o seguinte: ‘‘Todos nós seremos rapidamente esquecidos; ela ficarᒒ. Era Frank Sinatra. Deve significar alguma coisa.
Judy Garland tem três momentos estelares em sua carreira no cinema: ‘‘O Mágico de Oz’’ (1939), ‘‘Nasce uma Estrela’’ (1955) e ‘‘Julgamento de Nuremberg’’ (1961). Antes de fazer seu melhor filme em 1939 com Victor Fleming, Judy já havia mudado de nome (foi batizada como Frances Ethel Gumm) e aparecido três anos antes como criança-prodígio em Pigskin Parede, de David Butler. A partir daí formou parceria com outro ‘‘prodígio’’, Mickey Rooney. Trabalharam juntos numa série de filmes como ‘‘os filhos do juiz Hardy’’, nos quais protagonizavam aventuras inocentes (ou às vezes nem tanto), que não levariam o nome de ninguém para a posteridade.
A chance apareceu mesmo foi com a segunda adaptação (e quem se lembra da primeira?) do romance The Wonderful Wizard of Oz, escrito por Frank Baum em 1900. O filme foi dirigido por Victor Fleming, considerado um operário do cinema, pau para toda obra, trabalhador, e sem nenhuma veleidade autoral para atrapalhar a bilheteria. Ele mesmo dirigiu o paradigma de clássico E o Vento Levou, segundo testemunhas fidedignas, sob ordens estritas do produtor David Selznik - que seria o verdadeiro ‘‘autor’’, no caso.
Oz tem aquele encanto raro de superprodução honesta que, provavelmente por artes do acaso, acaba mexendo em algum canto do inconsciente das pessoas e por isso se torna inesquecível. Não dá, de fato, para esquecer a adolescente Dorothy cantando ‘‘Over the Rainbow’’ num momento culminante da história. Um must emocional que Judy Garland, como cantora, levaria anos mais tarde a uma privilegiada platéia presente no Carnegie Hall em 1961. Sinatra, Rock Hudson, Henry Fonda, Spencer Tracy, Julie Andrew estavam lá. Conta-se que esses happy few choraram lágrimas de esguicho vendo-a e ouvindo-a cantar. Ela acabara de sair de uma daquelas descidas ao inferno, movidas a álcool e drogas, e sem nenhum Virgílio por perto para protegê-la. Revivia no palco.
Depois de Oz veio a fase dos musicais em que atuava como vedete, ao lado de Fred Astaire e Gene Kelly - filmes em geral dirigidos por Vincent Minelli (marido, durante algum tempo, e pai de sua filha Liza). Judy logo em seguida entrou em crise brava. Conta-se que trabalhava como um remador de Ben-Hur e se habitou às populares ‘‘bolinhas’’ para aguentar o tranco. Em 1950, uma grave depressão quase a levou ao suicídio. Ressurge com o maravilhoso melô de George Cukor, ‘‘Nasce uma Estrela’’. Pela primeira vez mostrava suas virtudes de atriz dramática, talento não explorado até então.
Depois de alguns trabalhos que obviamente não se contam entre os melhores, espanta a todos com sua interpretação em ‘‘Julgamento de Nuremberg’’, de Stanley Kramer. Aqui é a atriz, mesmo, se impondo. Aceita o papel de uma mulher feia e precocemente envelhecida, cujo testemunho perturbador se torna o centro da trama.
O resto da filmografia dela não conta. Ou não conta para o público cinéfilo. Sabe-se que ela tentou algumas vezes endireitar a vida e não conseguiu. Foi encontrada morta, em 1969, em Londres. Tinha 47 anos e aparência de 70 ou mais.

mockup