O Lume sendo lume
Grupo de Campinas trouxe ao Filo espetáculo que é um fio de memórias, entre a realidade e a ficção
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Grupo de Campinas trouxe ao Filo espetáculo que é um fio de memórias, entre a realidade e a ficção
Celia Musilli - Grupo Folha 
O grupo Lume, de Campinas, trouxe mais um espetáculo ao Filo. Conhecido no Brasil e no exterior, o grupo voltou ao festival de Londrina, onde já esteve outras vezes. Em “Kintsugi, 100 Memórias” - apresentado em duas sessões no domingo (18) e na segunda (19), no Teatro Ouro Verde – a companhia traça um fio que percorre memórias pessoais e também de outras montagens do grupo, deixando em suspense o que é fato e o que é ficção.
A chamada autoficção, com dramaturgia de Pedro Kosovski e direção do argentino Emilio Garcia Whebi, tem clima de conversa, com narrativas no espaço do próprio palco, onde foram dispostas cerca de 180 cadeiras, eliminando-se assim a distância entre a plateia e o grupo.
O Lume tem essa característica de fazer trabalhos intimistas, o espectador está sempre “em casa”, como em outras montagens, a exemplo de “Café com Queijo”, que foi lembrada nesta encenação de cerca de 2 horas que conta ainda com música ao vivo, criando um dinamismo na costura das cenas.
Os personagens contam histórias que seriam da infância e outras fases da vida, mostrando objetos pessoais que alinhavam o texto. Trata-se de uma colcha de retalhos passada de geração em geração. E quem não gosta de ouvir histórias que nos remetem também a casa dos avós e dos pais? Ao casamento dos tios, ao nascimento dos irmãos, aos livros e às cartas, ainda que seja para se alegrar ou se entristecer?
Com uma personagem revivendo o que seria a internação da mãe depressiva num hospital psiquiátrico, outra trazendo de volta os anos da ditadura e a convivência com o pai, o que se vê são relatos diversificados e cheios de emoções que afloram trazidas pelos objetos. Sobre tudo, domina a discussão acerca do comportamento de um dos atores que, num dado momento, teria dito: “não preciso de vocês.” Frase repetida à exaustão para remeter à história da própria companhia que já tem décadas de estrada.
Um vaso de cerâmica quebrado no início de espetáculo justifica a explosão, os conflitos e, ao fim, a colagem das próprias memórias através de um objeto “vivo” que representa as quebras e remendos que fazemos na própria vida. Quem nunca se quebrou por dentro e depois se reconstituiu porque disso é feita a trajetória humana, sempre frágil, instável, vulnerável, mas também passível de “consertos”?
A memória metafórica do vaso quebrado e completamente reconstituído ao fim da montagem, é o leitmotiv do espetáculo no qual lembranças individuais e coletivas se colam. Kintsugi é uma técnica japonesa de restauração cerâmica que dá nome ao nome do espetáculo e cria sua construção. Outros objetos como malas, moedas, roupas, fotos de família, óculos, cartas e desenhos compõem o registro das memórias com cada um dos personagens revelando-se a partir da sua própria versão, trespassados pelos fragmentos físicos e sentimentais. Trata-se do objeto remetendo à emoção.
Como arcabouço da memória também aparecem fotos e histórias de pessoas que sofrem de Alzheimer. A doença é o gatilho da reflexão de algo tão valioso que é a capacidade de lembrar-se, porque a lembrança é o fio da vida e quando se rompe é como se as trajetórias se anulassem, nos lançando no escuro da própria história.
Com um fio narrativo a partir de objetos instigantes (se não cortantes), o Lume, através do trabalho dos atores Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini, oferece ao público a possibilidade de resgatar sua própria história, em momentos felizes, dramáticos, hilários. O espetáculo é um mergulho em situações da vida pessoal e coletiva que contagiam a plateia misturando realidade e ficção. E as lembranças da plateia afloram no contato eficiente com um grupo que não separa arte e vida. É o Lume sendo lume.
Mais informações sobre o Filo no site:
O Filo conta com o apoio do grupo Folha de Comunicação


