O lugar do artista
Rubens Pillegi - De Londrina
Especial para a Folha2
Na Grécia antiga, Phidias, um grande escultor, que dominava a matéria e a forma, era considerado um filósofo. Já Sócrates, que era filósofo, adorava deitar-se na relva, simplesmente desfrutando o ócio. Parecia tudo bem, mas na República idealizada por Platão, outro filósofo, artistas e poetas deveriam ser banidos da Urbe, para a cidade poder funcionar.
A Bíblia também não deixa por menos. Lá está escrito que tocadores de lira têm parte com o demo e são proibidos de conviver com o povo de Israel. Quando estes tiveram a idéia - e ouro suficiente - para construir um templo a Javé, seu Deus, mandaram importar além dos cedros do Líbano, artistas de outras nações.
Até a Idade Média, nem mesmo essa categoria que faz arte, chamados de artistas, existia. Eram chamados de artesãos e serviam para decorar letras e pintar iluminuras para ilustrar passagens bíblicas em pergaminhos.
Foi na Europa renascentista que a profissão começou a ganhar status, ao mesmo tempo em que continuava ser um ofício. Artista tinha emprego garantido trabalhando nas oficinas dos mestres, sustentados pela Igreja Católica.
Mas logo veio a Reforma protestante e o artista teve que se adaptar aos novos tempos para servir a burguesia com retratos, paisagens e naturezas-mortas, atendendo as encomendas da classe que substituía a igreja no poder.
No século 18 parecia tudo resolvido. Era só continuar aquilo que já havia sido inventado e tudo bem. Até hoje o padrão médio de apreciação estética, ainda tem o estilo neoclássico como referência de gosto.
Mas o bicho homem não se contenta. E o artista é o primeiro a manifestar esse descontentamento. E veio a arte romântica. Os artistas morrendo jovens, no meio de aventuras, ou de tuberculose. Acabando com o comodismo de tempos atrás. Afinal, os conflitos da sociedade industrial eram muito mais profundos do que os da sociedade arcaica.
Não que isso ajudasse na imagem dos artistas. Que eras vistos com muita desconfiança por todo mundo. Achava que o que faziam era coisa de doido.
Se não dava para explicar, então o negócio era confundir. E o movimento dadaísta foi a resposta da arte aos horrores da 1ª guerra. E fora os artistas que ainda tentaram salvar a instituição e a seriedade da profissão, os outros trataram ao menos de se divertir.
O fato é que viver passou a ser uma coisa complicada. Daí o papel do artista passou a ser ao mesmo tempo fundamental e supérfluo na sociedade.
Radical e anárquico, suas atitudes passaram a ser a chave para a compreensão de suas obras. Nessa história de tudo se transformar em mercadoria e interesses comerciais, o artista cria mecanismos para driblar essa complacência generalizada. Os anos 80 e 90 procuraram domesticar os artistas e sua arte, vendendo inclusive seu inconformismo social.
Com o desenvolvimento das tecnologias e no auge do capitalismo globalizado, começaram a aparecer serviços especializados para artistas, como, por exemplo, arte eletrônica, que, dizem, é o futuro da arte. A solução agora é privatizar. Platão não encontraria lugar melhor para colocar o artista.
No Brasil, menos de uma centena de artistas vive exclusivamente de sua arte. Os outros, ou são de famílias ricas, ou trabalham em funções paralelas, dando aulas, fazendo programação visual, ou escrevendo sobre arte, por exemplo, enquanto investem em seu trabalho.
Esse bicho estranho, louco, de boné e cachimbo, com olhar sonhador, pensando em sua musa inspiradora, não tem lugar nesta história. E apesar de tudo, em qualquer lugar, o artista vai estar sempre criando, inventando, propondo e produzindo arte para enriquecer a vida neste mundo em que vivemos.





