O louco e o poeta
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 1997
Maria Flores Especial para a Folha2 
Mario CesarNelson Bravo, entre as recordações que guarda de DrummondDizem que temos a capacidade de atrair para nossas vidas as pessoas que merecemos. Pois o bancário Nelson Bravo, hoje aposentado, atraiu para a vida dele ninguém menos que o poeta Carlos Drummond de Andrade. Foi em 1974, quando trabalhava numa agência do Banco do Brasil em Copacabana, no Rio de Janeiro, que Nelson viu Drummond pela primeira vez, enfrentando fila para chegar até o caixa. Ninguém se atrevia a puxar conversa com o homem intelectual, sério e cabisbaixo, que parecia pedir a todos que não o incomodassem na tarefa de observar o dia-a-dia ao seu redor, material de tantas crônicas. Ninguém, exceto Nelson Bravo, que foi logo se apresentando e se declarando um fã de sua obra literária.
A diferença entre o bancário Nelson e outros tantos fãs que certamente se apresentaram a Carlos Drummond de Andrade é que ele é um louco, um louco útil, como dizia o próprio poeta. Nelson não apenas tratou de acompanhar os passos de Drummond, que morava a poucos metros de seu apartamento, como conquistou-lhe a admiração através dos desenhos que fazia. Foi uma coleção de charges bem humoradas que mostravam o poeta em cenas do cotidiano e que lhe eram enviadas de presente. Em troca, e como sinal de agradecimento e afeto, Drummond mandou dezenas de cartas e bilhetes para Nelson. Um acervo de fazer inveja a muitos amigos íntimos do poeta.
Os bilhetes revelam um Drummond solitário e carente, comovido com a atenção dispensada por Nelson, agradecendo os afagos recebidos, em forma de poema. Já não sei agradecer tanta generosidade de espírito e coração. Vale o clássico muito obrigado? É de coração, diz um dos bilhetes, enviados sempre pelo Correio. Em outra correspondência, se rende: Minha coleção de desenhos está soberba. Comovido, penhorado, vencido, o abraço do Drummond.
O que mais encantava Drummond era a paixão de Nelson por Lima Barreto, que o fazia acumular livros e ensaios sobre o autor, além de fazer palestras gratuitas onde quer que fosse convidado. A respeito desta tarefa, Nelson um dia lhe perguntou:
- Poeta, você acha que eu sou um louco?
E o poeta respondeu:
- Claro, meu Bravo Nelson, você é um louco, mas um louco útil à sociedade. Como Mario de Andrade, você sonha e faz as coisas!
Durante os 14 anos de correspondência e amizade, Nelson jamais invadiu a tão preservada privacidade de Drummond, que detestava que alguém fosse à sua casa. Os encontros eram na rua, no calçadão de Copacabana, por onde o poeta adorava passear e era festejado por jovens universitárias. Por favor, agora não, Nelson, dizia Drummond nestes momentos. Nelson aguardava e aproveitava para arquivar mais um caso sobre a vida do amigo famoso.
O Anjo Policarpo Com o passar do tempo, a amizade entre Drummond e Nelson Bravo não se restringiu apenas aos bilhetes, mas passou à troca de presentes, como livros e material de pesquisa sobre os mais diversos autores. O nacionalismo inocente de Nelson fez com que Drummond o comparasse a Policarpo Quaresma, um dos principais personagens do escritor Lima Barreto, como mostra uma das cartas. Em outras, o poeta se refere ao amigo como se este fosse um anjo da guarda.
A bondade do bancário deixava o poeta constrangido e ao mesmo tempo deliciado com tanto carinho, a ponto de brindar-lhe com versos como este: Sente bem este instante e grava-o no cristal da memória infantil, agora renascida. A beleza e a bondade enlaçam-se, afinal. Vamos recomeçar o caminho da vida.
De fato, o bancário se empenhava em tirar, ou pelo menos tentar tirar, as pedras do caminho de Drummond. Foi o que aconteceu no dia do enterro do escritor Pedro Nava, grande amigo do poeta. Estavam todos no cemitério. Drummond, a filha Julieta, a mulher Dolores e o neto, Pedro. Ah, claro, e Nelson Bravo! Além deles, milhares de pessoas se amontoavam no local, num dos dias mais quentes do ano. Drummond não dirigia, não tinha carro e dependia de táxi, mas estes pareciam simplesmente ter desaparecido da face da terra naquele momento infernal. Mas eis que Nelson, o Bravo, avistou um. O motorista avisou que tinha destino certo, precisava buscar um passageiro. Nelson ignorou o recado, empurrou Drummond e a família para dentro do carro e ordenou ao motorista que os levassem para casa. Ele pegou uma carona, com outro escritor, que a partir deste episódio também ficou seu amigo.
Mas o anjo Policarpo não foi capaz de poupar-lhe da dor maior, a morte da filha amada, Maria Julieta. O Bravo Nelson enfraquece e se emociona ao lembrar. Quando cheguei ao cemitério encontrei Drummond encostado num túmulo qualquer, sem condições físicas de acompanhar o cortejo da filha. Ele nunca esteve tão solitário!, conta. Nelson se empenhou em conseguir uma cadeira para o poeta, mas desta vez não conseguiu ampará-lo. Doze dias depois, no dia 17 de agosto de 1987, Carlos Drummond de Andrade morreu.
Além das lembranças, Nelson Bravo guarda em seu apartamento, em Londrina, todos os livros escritos por e sobre Carlos Drummond de Andrade, dezenas de artigos publicados em revistas e jornais de todo o País e mais de 40 cartas enviadas a ele pelo poeta. Ele se dispõe a levar a exposição - montada em sua sala por ocasião do aniversário de morte de Drummond - para qualquer escola ou entidade interessada em saber mais sobre a vida e obra do poeta que cantou o tempo, mas não teve tempo de receber mais esta declaração de quem tanto o amou, simplesmente porque ele sabia dizer as coisas que a gente sentia.


