O tempo parece ter parado para Lucélia Santos. Aos 45 anos, mantém a graça e jovialidade dos 18, quando estreou na tevê em ‘‘Escrava Isaura’’ na Globo. O problema é que a carreira da atriz acompanhou a aparência: praticamente não progrediu depois de ter protagonizado, há 27 anos, a novela mais vendida no exterior. Lucélia retorna à Globo depois de um ‘‘exílio involuntário’’ que durou 15 anos. O telefonema que pôs fim ao ostracismo da atriz partiu de Ricardo Waddington, diretor de Núcleo interino de ‘‘Malhação’’. A partir de segunda-feira, a atriz encabeça o elenco do ‘‘folheteen’’ da Globo. ‘‘‘Malhação’ é o bicho porque dá oportunidade para quem está começando. E é assim que eu me sinto. A geração que assiste à ‘Malhação’ não conhece meu trabalho’’, pondera.
Na tal geração, está o próprio filho de Lucélia, Pedro, de 18 anos. Quando ela fez sua última novela na Globo, ‘‘Sinhá Moça’’, escrita por Benedito Ruy Barbosa em 1986, Pedro ainda estava no maternal. Hoje, o rapaz não só acompanha ‘‘Malhação’’ como troca idéias com a mãe sobre alguns dos temas abordados, como preconceito racial e gravidez indesejada. Com a entrada de Lucélia na trama, mãe e filho vão poder conversar também sobre mercado de trabalho. Afinal, o papel da atriz é de uma médica que sustenta a família enquanto o marido, um engenheiro desempregado, cuida dos afazeres domésticos. ‘‘Boa parte da população brasileira vai se identificar com esta família’’, acredita.
Na nova fase de ‘‘Malhação’’, Lucélia vai contracenar com o ator André Di Biase, o eterno Lula de ‘‘Armação Ilimitada’’. É ele que interpreta o marido que não aguenta a situação e se separa da mulher. Nessa volta às novelas, Lucélia jura não se sentir ‘‘desprestigiada’’ por ter sido convidada para atuar em ‘‘Malhação’’. Ela reconhece a fama de ‘‘celeiros de jovens talentos’’ e ‘‘geladeira para velhos atores’’ da novela da Globo. Isso não arrefece o ânimo da atriz que celebrizou a escrava branca do romance de Bernardo Guimarães. Foi justamente por causa dela que Lucélia ficou conhecida nos quatro cantos do mundo. ‘‘Um dia, visitei um mosteiro no Himalaia e os monges vieram me cumprimentar. Quase não acreditei’’, espanta-se.
É por essas e outras que Lucélia não sabe porque ficou tanto tempo longe da Globo. Versões, segundo ela, existem muitas. Uma delas atribui a defenestração da atriz ao fato de ela ter protagonizado ‘‘Carmem’’ na então rival da Globo, Rede Manchete. A atriz, porém, refuta essa versão. Afinal, outros atores da emissora, como José Wilker e Paulo Betti, também fizeram a novela. Outra versão diz respeito ao engajamento da atriz no Partido Verde. Embora não saiba afirmar se suas convicções políticas prejudicaram a carreira, ela admite que o tempo a ensinou a medir mais as palavras. ‘‘Durante esses anos, as pessoas viviam cobrando a minha volta para a Globo. Mas o que eu podia fazer? Não tinha cabimento ficar ligando para casa dos autores pedindo emprego...’’, ressalta.
Com as portas fechadas na Globo, Lucélia tentou o SBT. Na emissora de Sílvio Santos, fez ‘‘Sangue do Meu Sangue’’, de 1995, e ‘‘Dona Anja’’, de 97. Depois disso, passou a desenvolver a carreira de produtora na China. Ela já produziu seis documentários em parceria com a emissora Sichuan TV, de Pequim, dois sobre natureza e quatro sobre miscigenação racial. Até o ano que vem, planeja viabilizar ‘‘Amor do Outro Lado da Terra’’, minissérie em 30 capítulos que envolve três gerações de uma mesma família. ‘‘Produzir é a coisa mais chata que existe. Produção independente, então, nem se fala... A essa altura, fazer ’Malhação’ é o mesmo que tirar férias’’, brinca.
O retorno de Lucélia à Globo foi ensaiado no ano passado, quando a atriz foi convidada para participar do especial ‘‘TV Anos 50’’. Quando pôs os pés no Projac, complexo de estúdios da Globo no Rio, Lucélia não acreditou no que viu. Na mesma hora, lembrou-se de quando passava mais tempo no estúdio do que em casa e caiu no choro. ‘‘Tirei o maior proveito deste exílio. Não guardo mágoa ou ressentimento de ninguém. Hoje, me sinto mais forte e realizada que nunca’’, garante.

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