Quando se fala em arte ambiental, logo pensamos naquela arte feita no meio ambiente, no meio do mato, ligada a questões ecológicas de uma maneira geral. Dificilmente aceitamos que esse conceito ambiental englobe também o ambiente urbano e pode incluir, inclusive, uma sala fechada por paredes. Tal definição pode parecer contraditória, mas para a arte contemporânea, dentro e fora, espaço construído e orgânico são apenas convenção de uma mesma realidade. ‘‘Onde o fora habita, senão dentro de mim?’’, já se questionava Ligya Clark nos anos 70.
Mas como criar uma obra de arte dessas, sendo ao mesmo tempo um gesto inaugural e que faça parte deste tipo de pensamento já bastante explorado nas artes plásticas contemporânea, sem incorrer em fórmulas prontas? Que mecanismos devem agir primeiro para a realização dessa poética– o sensível ou o intelectual? Na verdade, sua condição primeira é o conhecimento da realidade onde será dada a intervenção estética, envolvendo corpo, alma, coração e cérebro nesta aventura onde arte e vida se correspondem mutuamente.
Uma dessas realizações se deu em Antonina, em julho deste ano, no Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná, na oficina ministrada pelo artista plástico Newton Goto, com parte do grupo que frequentou seu curso.
Elegendo o lodo do mangue como objeto de pensamento plástico – dada a sua consistência orgânica que decompõe a matéria e faz gerar novas formas de vida e por ser o mangue parte íntima da vida dos moradores da região –, logo o grupo se sentiu objeto da curiosidade que despertava nos pescadores e anônimos que não entendiam a razão de toda aquela agitação em torno de algo que, para eles, não há razão para questionamentos.
Para duas pessoas do grupo, porém, que se dispuseram levar a cabo a realização do trabalho, o lodo, sua consistência, cheiro, cor, impregnância, etc. eram parte da mesma descoberta que envolvia a cidade e seus habitantes. Mais: o que se buscava ali era a compreensão de conteúdos internos e individuais para a criação de uma obra envolvendo contatos físicos e emocionais ao meio onde se dava. Expressão de desejo entre partes que se interagem sem hierarquizações. Dentro e fora não só fisicamente, como também metafisicamente. Transformar o barro, a lama, o lodo do mangue – objeto desprovido de significados – em símbolo.
Em um conjunto de três trabalhos que se completavam, essa obra foi instalada em meio à ruína de uma casa que conservava apenas parte do piso e de suas paredes externas. Onde o tempo era percebido com intensidade naquele local.
A primeira peça, intitulada ‘‘Onze e Meia’’, era feita de lodo sobre o piso e os cantos da parte de uma parede formando uma circunferência dentro de uma forma piramidal, triangular. Um buraco próximo ao seu centro lhe dava um caráter paradoxal entre transparência e opacidade, dentro e fora ao mesmo tempo. ‘‘Meio-dia’’ foi o nome dado à outra peça em que o lodo colocado ao redor de uma árvore formava uma circunferência, como se fosse sua própria sombra. Seus galhos principais tinham a forma quadrada, reforçando a idéia geométrica, exata. E a última, um varal com um lençol onde estava impresso o decalque da superfície do mangue, feito de lodo, criando com isto uma peça ao mesmo tempo delicada e bruta que impedia a continuidade do olhar pela paisagem sugerindo várias figuras ao acaso. O que era orgânico se transformou em espaço construído e esse, incluindo aí a razão, em forma orgânica que se correspondia com o ambiente.
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