O lobo, o gênio e o semideus
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Em uma semana atípica, os cinemas de Londrina recebem três estreias voltadas para públicos de diferentes idades. A começar pelas crianças e pré-adolescentes, que podem encontrar em ''Percy Jackson e o Ladrão de Raios'' um bom passatempo enquanto o próximo filme de Harry Potter não chega à telas. O terror ''Lobisomem'' e o drama ''O Solista'' completam as ofertas da vez.
Percy Jackson é o protagonista de uma série de cinco livros (todos best sellers) que guarda muitos pontos em comum com a saga de Harry Potter. Mas no lugar da bruxaria, o eixo temático da história se baseia na mitologia grega. A ambientação também muda: em vez de uma Inglaterra estilizada, o cenário é a América dos dias de hoje.
O personagem-título é um garoto que se descobre semideus - filho de um dos deuses do Olimpo (no caso Poseidon) com uma simples mortal. Envolvido numa trama cabulosa que pode colocar em risco a humanidade, Percy larga sua vida comum para ingressar num acampamento de heróis, onde deve desenvolver suas habilidades. De lá, parte para uma missão por várias cidades americanas, acompanhado de um sátiro (misto de homem e bode) e da filha da deusa Athena.
Como se não bastassem as semelhanças com Harry Potter, a versão para o cinema tem o mesmo realizador dos dois primeiros filmes do bruxo (para muitos, os melhores da série). Com um currículo no gênero infantil que também inclui a direção de ''Esqueceram de Mim'' e o roteiro de ''Os Goonies'', Chris Columbus se sai bem novamente, dessa vez apostando numa narrativa mais acelerada. De quebra, o elenco traz várias participações de astros como Uma Thurman, Pierce Brosnan, Sean Bean e Rosario Dawson.
Esse ritmo frenético, somado ao absurdo das aventuras vividas pelos personagens, faz de ''Percy Jackson e o Ladrão de Raios'' uma diversão nonsense para quem não leu o livro. Já os fãs de primeira hora certamente vão reclamar da liberdade do roteiro - eles sempre reclamam. De resto, esse ''Potter moderninho'' tem tudo para agradar seu público alvo: meninos e meninas entre 8 e 15 anos.
Lobo de olheiras
Para os mais crescidinhos (mas nem tanto), ''Lobisomem'' traz Benicio Del Toro na pele - e nos pelos - de um licantropo recém-transformado. O galã de olheiras vive Lawrence Talbot, um ator inglês radicado nos EUA que viaja à terra natal para tentar encontrar o irmão desaparecido. De volta à aldeia de Blackmoor, onte também mora seu pai (Anthony Hopkins), ele é informado que o mano está morto e, em seguida, leva uma mordida de uma criatura misteriosa.
Sim, o bichão é um lobisomen, e não demora muito para Lawrence sair por aí fazendo vítimas - mostradas com todo o sangue e tripas que se tem direito. O protagonista, no entanto, preserva seu lado sensível, principalmente por conta da atração que sente pela cunhada viúva (Emily Blunt). Dividido entre a razão e o instinto animal, ele ainda tem de fugir de um inspetor da Scotland Yard (Hugo Weaving) que investiga o caso.
Com um argumento interessante, inspirado num clássico dos anos 40, ''Lobisomem'' se perde numa construção derivativa, sem nenhum traço de originalidade (nem a maquiagem se destaca). Para piorar, o diretor Joe Johnston não consegue dar conta da narrativa, marcada por um amontoado de situações atropeladas. Enfim: um filme B, porém feito com muito dinheiro. Melhor se fosse um trash assumido.
A 'América pobre'
A opção ''madura'' da semana é ''O Solista'', baseado em fatos reais e dirigido pelo inglês Joe Wright (das produções de época ''Desejo e Separação'', ''Orgulho e Preconceito''). Aqui, um colunista do jornal Los Angeles Times se encanta com a história do sem-teto esquizofrênico que já foi um prodígio da música erudita. Ele está sensível, em plena crise de meia idade, e acaba se envolvendo além do esperado com o homem que transforma em notícia.
Robert Downey Jr. é o jornalista. Jamie Foxx, o morador de rua. E por mais que Wright não cometa muitos erros numa ambientação contemporânea, o grande mérito do filme está mesmo na combinação de dois atores em ótima fase. Isso porque ''O Solista'' tenta denunciar a ''América pobre'', mas o faz num tom mais emotivo do que político. Nada que impressione quem está acostumado a abrir a porta de casa e dar bom dia para a miséria - como acontece por aqui.
Mesmo nos EUA a produção passou batida. Prevista para entrar em cartaz no fim de 2008, foi adiada e só estreou nas salas americanas em abril do ano passado. Acabou ficando numa espécie de ''limbo'' entre duas temporadas do Oscar e, por isso, terminou ignorada pela Academia. Uma tremenda injustiça com a dupla Downey e Foxx.


