'O Livro Negro' de Verhoeven
Paul Verhoeven. Alguém não iniciado seria capaz de ligar este nome a uma filmografia? Nos anos 70, este holandês levou impacto a festivais com alguns títulos bastante autorais. Fez sucesso com ''Delícias Turcas'', ''Soldado Laranja'' e ''Flesh + Blood'', filmes que também garantiram carreira internacional ao ator Rutger Hauer, o andróide louro de ''Blade Runner''. Hollywood viu, gostou do potencial de Verhoeven e o levou. Alguns dizem que foi abduzido. O fato é que Verhoeven literalmente ''fez a América", e em pouco mais de 20 anos construiu uma segunda carreira com títulos populares e neutros como ''Robocop'', ''Instinto Selvagem'', ''Tropas Estelares'' e ''O Homem Invisível''.
Ele agora regressou da abdução, voltou à terra natal, mas o germe hollywoodiano ficou inoculado, pelo jeito sem recuperação. Há seis anos sem filmar, seu título mais recente está na competição aqui em Veneza. É ''O Livro Negro'', um espetáculo de luxo, super-co-produção de US$ 22 milhões, um filme tradicional de guerra e espionagem. ''Baseado em fatos reais'', conta a história de uma jovem judia-holandesa que se junta à resistência anti-nazista para saber quem traiu e matou seus pais durante tentativa de fuga da Holanda ocupada.
O roteiro não aprofunda fatos ou personagens, e é meramente descritivo, superficial. É thriller de espionagem, movimentadíssimo, sem dúvida, com direito a traições, seduções, sexo e assassinatos, mas seus 135 minutos de idas e vindas entre quartel-general alemão e esconderijos da resistência acabam cansando a platéia. Segundo Verhoeven, na coletiva ao lado de sua bela atriz Carice van Houten, o filme é fruto de quase quarenta anos de pesquisa. Ele saiu em defesa de seu espetáculo em estado puro, afirmando que ''o cinema é um híbrido surpreendente de arte e comércio, por isso meu filme tem muito suspense. Meu ideal é combinar este dualismo, uma lição hollywoodiana da qual não esqueci''. O problema é que ''O Livro Negro'' é comércio demais e arte de menos. O filme, há pouco indicado oficialmente como candidato holandês a uma vaga entre os cinco nominados ao próximo Oscar de filme estrangeiro, já tem exibição garantida no Brasil, comprado pela distribuidora Europa. (C.E.L.J.)





