Em uma nota de sua ‘‘Obra Aberta’’, Umberto Eco observa: ‘‘... já terá provavelmente acontecido ao leitor encontrar-se numa situação das mais angustiantes, isto é, sozinho, numa hora de cafard, talvez num lugar desconhecido, num país estrangeiro, bebendo num bar para matar o tempo, numa espera inconsciente e metodicamente frustrada de que algo intervenha para quebrar o curso da solidão. Não creio que haja situação menos suportável, e todavia, quem nela se encontrou, conseguiu suportá-la, julgando-a no fundo, muito ‘‘literária’’. Por quê? Porque toda uma literatura nos acostumou à convenção de que, quando um sujeito se acha sozinho bebendo num bar, alguma coisa lhe acontece: no romance policial tratar-se-á da aparição duma loira platinada, em Hemingway um encontro menos berrante, um diálogo, uma revelação do ‘‘nada’’ (veja-se, por exemplo, o conto ‘‘Um Lugar Limpo e Bem Iluminado’’, que ilustra magistralmente este último tema). ‘‘Portanto’’, conclui o autor da ‘‘Obra Aberta’’, ‘‘Certa ordem narrativa prevê, quase institucionalmente, que, quando alguém bebe sozinho num bar alguma coisa deve acontecer’’ (op. cit., São Paulo, editora Perspectiva, 2ª ed., 1971 - p. 258).
Sabemos que a vida não é assim, ou raramente o é, e, no entanto, a maioria de nós tende a unificar os fatos da própria existência, dotando-os de nexos recíprocos, e mesmo a imaginar-se como o personagem central de um livro imaginário (em outra ocasião, neste espaço, sugeri que, quando alguém diz que sua vida é ‘‘um livro aberto’’, possivelmente está pensando em algo nos moldes de um folhetim francês do século passado ou de uma novela radiofônica escrita por Félix Caignet ou Glória Magadan - perdoem se acaso a grafia destes nomes não estiver correta, pois costumo fingir que eles não são ‘‘do meu tempo’’). Na verdade, todos permanecemos muito aristotélicos no que diz respeito à elaboração do ‘‘enredo’’ de nossas vidas, mesmo quando nunca tenhamos lido a ‘‘Poética’’. Para corroborar a primeira parte desta afirmação, recorro ainda uma vez a Umberto Eco, que nos conta um delicioso episódio envolvendo Alain Robbe-Grillet, o principal teórico e praticante do chamado noveau roman. No verão de 61, este escritor sofreu um desastre aéreo, após o qual, tendo escapado ileso, foi entrevistado pela imprensa. E, emocionadíssimo, narrou o acidente da forma mais tradicional. Sua narrativa era, em suma, ‘‘aristotélica, balzaquiana, talvez carregada de suspense (...), de participação subjetiva, dotada de um começo, de um clímax e de um final apropriado’’ - ou seja, algo diametralmente oposto à impessoalidade, objetividade e desdramatização preconizadas por Robbe-Grillet. Eco, no entanto, deixa claro que este é um daqueles casos em que não cabe exigir concordância entre a teoria e a prática. ‘‘De fato’’, argumenta, ‘‘ninguém pretenderia que um cientista adepto das geometrias não-euclidianas, necessitando medir seu quarto para a construção de um armário, usasse a geometria de Riemann; ou que um fautor da teoria da relatividade, perguntando as horas a um motorista de passagem, enquanto está parado na calçada, acertasse seu relógio com base nas transformações de Lorentz’’.
Não há, portanto, nenhum problema em que, em nossas relações cotidianas, continuemos a contar a nossa ‘‘história’’ de um modo convencional, consagrado por uma tradição narrativa institucionalizada, com a condição de não nos esquecermos de que essa ‘‘história’’ é, por assim dizer, o resultado de uma ‘‘montagem’’, não muito diferente da montagem cinematográfica, na qual cortamos cenas e unimos outras, buscando estabelecer nexos entre elas. A vida, ao contrário, é, precisamente, não-filme, não-literatura, refratária a toda representação: fluxo não organizado, massa informe dos acontecimentos, fragmentários e descontínuos. Por isso mesmo, o nosso ‘‘livro imaginário’’ nunca será sobre a vida, ainda que seja a nossa, e sim apenas uma história que nos apraz ou não contar.

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