Jackeline Seglin
De Londrina
A solidão literária, o lado obscuro da criação... a sombra da vida humana. Por trás do criador, os sentimentos, as fraquezas, a vida pessoal. As impressões guardadas de antigos encontros serviram de base para o jornalista e escritor José Castello construir um registro singular da vida e obra de 13 escritores, um artista plástico e um jornalista no livro ‘‘Inventário das Sombras’’, que será lançado hoje, em Curitiba, pela Editora Record.
A escolha das personagens do livro, segundo Castello, foi absolutamente arbitrária. ‘‘São meus escritores favoritos. Também tinha que ver em que medida eu seria capaz de escrever sobre eles. Havia a necessidade de um contato que justificasse escrever algo diferente do já publicado.’’
O leitor vai tomar contato com as impressões do autor sobre nomes como Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Raduan Nassar, Alain-Robe Grillet, Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu, entre outros.
Neste trabalho, Castello revela histórias que descrevem um lado dos autores desconhecido pelo público e faz uma leitura dessa obscuridade. ‘‘É uma espécie de balanço de alguns dos melhores momentos dos meus quase 20 anos como repórter literário’’, diz. ‘‘Não se trata de uma coletânea de entrevistas e reportagens. São textos escritos a partir de reportagens feitas por mim’’, completa. O trabalho de José Castello é um misto de jornalismo, biografia, ensaio e ficção, com episódios rememorados e recontados livremente por ele.
Castello retomou o contato com seus textos e releu as obras dos autores em questão para relatar o que acontece na periferia do trabalho do repórter literário - o que ele chama da região das sombras. ‘‘A idéia geral da sombra é isso. Tento pegar, tanto das entrevistas como dos contatos pessoais, o que sobra, o que fica de lado, o que não aparece nas obras. O lado mais tormentoso e duro que se passa nos três ou quatro anos em que o escritor fica em casa, voltado para sua vida interior, numa grande introspecção, e produzindo. Esse tempo é uma parte desprezada.’’
Ao falar sobre Manoel de Barros, Castello desmistifica a idéia que o grande público tem do escritor. ‘‘Ele trabalha na solidão. Como está no Pantanal, sozinho, as pessoas imaginam que ele vive somente aquilo. E não é. Ele tem uma vida completamente diferente; mora numa casa moderna, tem belas coleções de arte, uma enorme biblioteca... É aí que a própria literatura torna-se uma armadilha para o leitor. Não é porque o cara mora no mato que ele vai ser um matuto.’’
O jornalista João Rath entrou no rol de Castello por ser um ‘‘fabulador oral’’. Segundo o autor, Rath era um jornalista que trabalhava no Rio e em São Paulo e não era muito conhecido, não costumava assinar os textos, apesar de ser extremamente competente. ‘‘Que se saiba, ele não deixou uma linha escrita, nem em ficção. Mas foi a pessoa de imaginação mais fértil que conheci. Adorava contar histórias e te envolvia nelas. Ele tinha uma capacidade extraordinária de envolver vida e fantasia.’’
Os únicos dois autores com os quais Castello não manteve um contato pessoal foram Dalton Trevisan e Raduan Nassar. ‘‘No capítulo sobre o Dalton eu escrevo sobre o que não vi. Tive que lidar com a presença ‘invisível’ dele.’’ No caso de Raduan Nassar, que não gosta de dar entrevistas, Castello abordou o fato do escritor ter rompido com a literatura. ‘‘Ele parou de escrever, mas não deixou de ser um escritor. A estratégia fracassou.’’
Há mais de cinco anos morando em Curitiba, o carioca José Castello confessa que somente depois de deixar o jornalismo é que notou que o Rio de Janeiro não era o local mais apropriado para um escritor. ‘‘Curitiba é uma cidade tranquila, boa pra isso. Tem um clima perfeito para um escritor e um mundo literário ativo. Fico torcendo para que isso se desenvolva mais aqui.’’
Aos 48 anos, José Castello é cronista do jornal O Estado de São Paulo e colaborador das revistas Bravo, IstoÉ e Playboy.
- Lançamento do livro ‘‘Inventário das Sombras’’, de José Castello. Hoje, às 10 horas, na Livraria Curitiba (Rua das Flores, 78, em Curitiba).

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