O LIRISMO DA EVOLUÇÃO HUMANA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de junho de 2000
Joel Gehlen De Londrina Especial para a Folha 2 
O espetáculo Qfwfq..., apresentado no Filo, trata da expansão do universo sob uma ótica extremamente humana
Uma típica família de lavradores conta a história do universo, desde antes do Big Bang, quando toda a matéria universal, da Ursa Maior às pirâmides do Egito, estava compacta em um único ponto primordial. Se para a ciência é difícil esclarecer este tema, imagine para os quatro personagens - um casal de velhos, a filha e o filho - iletrados. No entanto, o espetáculo Qfwfq - Uma História do Universo, apresentado pelo grupo espanhol Teatro Meridional, no Filo, transformou o assunto espinhoso em uma fábula deliciosa, com singela veracidade, um extraordinário trabalho de atores e uma direção impecável.
O espetáculo é uma adaptação da obra Las Cosmicómicas, do escritor Ítalo Calvino. Trata-se de um conjunto de contos que narra a expansão do universo a partir de um ponto de vista humanizado, com um humor despretensioso, sem apelos fáceis, nem culpas, como sói ocorrer com as comédias. O texto constrói um universo tipicamente calviniano, com muito do realismo fantástico que marca sua obra, mas também com um olhar crítico e social, valorizando o indivíduo e sua capacidade de compreender e imaginar.
Os quatro personagens são a essência da simplicidade e pureza, reunindo em si o que de melhor há no ser humano: atenciosos, delicados, desprendidos, sem egoísmo, vaidades, inveja ou ganância. E a simplicidade dos personagens contamina os atores, tornando simples também a história que está sendo encenada. Num palco sem adereços, sem recursos, nem concessões facilitárias, os personagens se agigantam, amorosamente se enlaçam e cumprem a trajetória da evolução humana, desde o molusco até o ser vertebrado, intelectual e espiritual.
São personagens absurdamente líricos, o que os torna maravilhosos. Já existiam, exatamente como são, antes da explosão do Big Bang, com suas características físicas e psicológicas. No espetáculo, as formas independem do tempo e do espaço. Tudo é construído para rir e enternecer, não sem um certo abismar-se ao compreender como as coisas mais complexas, feito as galáxias em fuga, trazem em si uma simplicidade essencial.
A peça mostra a primeira manhã e a primeira noite contempladas com humana aflição. Nela, vive-se a completa ausência de conceitos e a necessária invenção das palavras para dar nome aos substantivos concretos, como pedra, mar, trigo; designar os adjetivos como as cores; e construir o abstrato experimentado, como o amor, medo, saudade. Juntos, descobrimos os confins inabarcáveis em que se tem todas as possibilidades pela frente e, como pioneiros eternos, se pode ser qualquer coisa,.
A lua confere o derradeiro lirismo a este espetáculo que é todo coração. Nas noites enluaradas do universo inaugural, pode-se embarcar no astro delicado com um mero salto. Numa dessas noites, o jovem lavrador descobre que a primeva mulher amada foi parar na lua com a explosão. Então, ele evade-se para lá, criando a mística dos amantes que derrama uma claridade entre luminosa e escura para alargar a compreensão sobre todas as coisas.


