O Líbano dos abruzzeses
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de março de 1998
Eunice Ataíde Marsigli Especial para Folha Turismo 
Pierluigi MarsigliSol nascente na base da Maiella na madrugada, com a primeira neve da temporadaO grande escritor Ignazio Siloni afirmou que Maiella era o Líbano dos Abruzzeses, pelo misterioso fascínio que esta montanha exercia sobre todos os habitantes do Vale do Sangro, também chamado de coração verde do verde coração da Itália.
Realmente, esta zona parece reagrupar todas as mais felizes características que são próprias do Abruzzo. Sua diversidade geográfica permite que se encontre a colina e em seguida a montanha, a pouca distância do mar Adriático, tudo isso aliado a uma natureza ainda intocada e à cordialidade de seus habitantes.
Maiella é uma senhora com idade bastante avançada. Os geólogos acreditam que surgiu no período Oligoceno, há aproximadamente 30 milhões de anos. Os maiores atrativos são as escarpas, suas fendas e inúmeras grutas. Uma sua outra característica é o grande número de planaltos existentes, que cobrem 38% de toda a superfície, e a presença de rios com longos percursos subterrâneos e uma constante obra de erosão externa e interna, devido à sua composição calcária.
O pico mais alto é o Monte Amaro (2.795 metros), constituído de rochas pertencentes ao período Cretáceo, uma era geológica datada entre os 100 milhões e os 120 milhões de anos. Neste local foram encontrados inúmeros fósseis. Segundo os geólogos, durante o período glacial, Maiella integrava uma única cadeia de montanhas que a unia aos Balcãs, cujos picos seriam hoje as ilhas Tremiti, no promontório do Gargano, nas ilhas de Pianosa e nas numerosas ilhas iugoslavas.
A origem do seu nome é ainda desconhecida e segundo alguns historiadores derivaria do nome da Deusa Maja. Todos, porém, afirmam que esta denominação é muito antiga e possui uma conotação sagrada e feminina. Em toda a Itália, Maiella é um dos poucos grupos montanhosos com um nome feminino e formas arredondadas.
Em 1955 foi criado o Parque Nacional da Maiella para proteger e evitar a extinção de inúmeras espécies animais e vegetais que se encontram exclusivamente nesta área. Aparentemente inadequada à vida animal ou vegetal, Maiella hospeda 1800 espécies de plantas, 40 de mamíferos, 150 de pássaros, 12 de anfíbios e 14 de répteis.
Durante a ocupação dos sannitas, na zona do rios Sangro e Aventino era praticado o culto a Hércules, que representava a força e a virilidade. Este herói e deus pagão, caracterizado pela sua coragem e sua força legendária, era venerado sobretudo pelos pastores e guerreiros. Com o advento do cristianismo esse culto extinguiu-se e na imaginação popular tomou lugar um outro personagem muito semelhante a Hércules, porém mais próximo à religião cristã: Sansão.
Numerosos são os traços deixados por este herói bíblico de força sobre-humana no vale do Sangro-Aventino. Segundo a lenda, o rio Sangro teve sua origem na urina de Sansão, existindo também inúmeros montes ligados de qualquer modo a este personagem. Um dos mais significativos é representado pela Morgia, uma elevação calcária que se ergue em meio das argilas multicoloridas que se localizam entre Torricella Peligna e Gessopalena.
A lenda afirma que Sansão retirou a Morgia do monte Porrara, perto de Palena, e depois de carregar o enorme peso sobre os ombros colocou um pé nas proximidades de Lama dei Peligni (onde está localizada a Pedra de Sansão) e o outro perto da rocha calcária sobre a qual foi construída a Igreja da Madona delle Rose, no território de Torricella Peligna. Sobre esta rocha existe um grande buraco que é considerada a pegada deste personagem.
Ainda segundo a lenda, Sansão, após colocar a Morgia no chão, tentou fazê-la rolar pelo vale. Apesar de sua extraordinária força não conseguiu, deixando, porém, a impressão de seu joelho em uma pedra próxima à Morgia, que foi destruída por escavações realizadas no local depois da última guerra.


