O legado histórico das Missões
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quarta-feira, 24 de abril de 2002
Emerson Dias Reportagem Local 
San Ignacio (Argentina) Conhecer as missões jesuíticas, sejam as brasileiras, argentinas ou paraguaias, é percorrer parte da história dos nossos antepassados tribais, misturando provações de fé, cultura e arte, organização social e batalhas sangrentas.
Caminhar diante das entradas das viviendas, cuidadas com carinho pelos moradores guarani, é como repetir os passos cotidianos de quase quatro séculos atrás. As missões foram a concretização de um ideal defendido pelos jesuítas na época das descobertas. A idéia de reunir os índios e ensiná-los (sem o uso da força) a plantar, construir e principalmente a ler e escrever, deu tão certo que incomodou os reis da Espanha e Portugal. O resultado foi um genocídio que durou mais de meio século e a destruição de todas as localidades.
Das 30 reduções espalhadas pelos países do Mercosul, 14 estão no norte da Argentina, bem próximo da fronteira com o Brasil. San Ignacio Mini é a mais conhecida e fica a 265 quilômetros de Foz do Iguaçu. O nome Mini serve apenas para diferenciá-la da missão de San Ignacio Guazu, sediada no Paraguai (juntamente com outras nove ruínas). A redução argentina ocupa 18 hectares de área e mantém a arquitetura da cidade quase intocada. Além das viviendas, é possível perceber as construções destinadas às capelas, oficinas, colégio, hospital e até ao cemitério.
Um gigantesco gramado central, chamado de Praça das Armas, era destinado às orações matinais, reuniões, festas e decisões conjuntas sobre o futuro da comunidade. Em frente à praça, a igreja com suas paredes de 15 metros de altura e 80 centímetros de largura, ainda mantém a imponência, apesar dos seus 370 anos vida.
Iniciada em 1632 e destruída em 1768, San Ignacio chegou reunir 4,5 mil guaranis sob suas casas em seu período mais fértil. A matéria-prima paras as construções era encontrada nas margens do Rio Paraná. Pedras enormes e argila vermelha e branca serviam tanto para erguer os edifícios quanto para moldar as esculturas.
Em um raio de 80 quilômetros ao redor de San Ignacio, outras três reduções podem ser encontradas. Uma delas, Nossa Senhora de Loreto, ficou conhecida na história missioneira por manter uma gráfica rústica, onde foram impressas diversas escrituras, entre elas A Diferença entre o Temporal e o Eterno (1705), o primeiro livro impresso traduzido para o guarani.
Atualmente, San Ignacio recebe cerca de 80 mil turistas todos os anos. Como as ruínas foram envolvidas pela cidade que possui o mesmo nome, além de belas imagens o visitante pode levar peças artesanais, livretos com a história das missões e também conhecer o museu montado na entrada do sítio arqueológico, tombado pela Unesco como um dos mais importantes patrimônios culturais da humanidade.
No hall de entrada, pinturas de artistas regionais mostram o dia a dia das missões. Circulando pelos corredores, o turista encontra reproduções dos lares indígenas, objetos feitos de palha e madeira. Há um setor dedicado aos padres jesuítas e também aos invasores portugueses e espanhóis, como a réplica de uma nau mercante. Antes de sair para visitar as ruínas, uma maquete gigante mostra como era a redução nos tempos de glória.
A entrada custa dois pesos e o acompanhamento do guia sai por dez pesos. Com a queda da cotação do dólar em relação à moeda argentina, os valores caíram bastante. É preciso ter cuidado na hora de pagar, já que a antiga paridade dólar/peso ainda é usada por muitos vendedores que mantêm suas barracas próximas ao local. Procure trocar dólares por peso nas casas de câmbio da fronteira antes de viajar para o interior.


