‘‘O Brasil vive um subdesenvolvimento cultural. A batalha do Brasil não pode ser apenas em torno das áreas econômica e social. A área cultural deste país tem que se desenvolver, por que senão as novas gerações ficam sem base, a cultura é a base para que as pessoas possam se encontrar.’’ A análise é da curadora e historiadora da arte Aracy Amaral que esteve em Londrina participando da programação da V Semana de Arte. Ela participou de mesa-redonda sobre ‘‘Figuras da Modernidade’’ junto com Vera D’Horta, Stela Teixeira Barros e Tole de Freitas.
Aracy Amaral foi convidada para falar sobre a personalidade de Tarsila do Amaral, um dos expoentes da pintura da década de 20. A partir da análise do trabalho da pintora como cronista do Diário de São Paulo, de 1936 a 1956, Aracy do Amaral chega à conclusão de que existe uma falta de visão cultural no Brasil.
Segundo a curadora e historiadora da arte, neste período Tarsila do Amaral passa a escrever regularmente no Diário de São Paulo sobre literatura, música, história, suas memórias da época em que viveu em Paris. Este trabalho estará reunido em um livro que Aracy Amaral deverá concluir no final do ano. ‘‘Esta pesquisa revela uma outra faceta de Tarsila do Amaral muito mais reflexiva e erudita’’, afirma. ‘‘É como se ela tivesse se despido do fato de ter sido a melhor pintora da década de 20 e estivesse olhando só para o que estava acontecendo. O surgimento de Portinari, os artistas à sua volta. É como se não estivesse reconhecendo a sua importância’’, avalia Aracy.
Na leitura dela, Tarsila não se assumia porque o meio cultural não a assumia. ‘‘Isto é uma demonstração cabal do espírito perverso do meio cultural e artístico brasileiro que não identifica de imediato os valores mais importantes. É preciso que passem décadas para o artista seja reconhecido, e muitas vezes é preciso que ele seja reconhecido no exterior primeiro.’’
Artistas da geração de 70 como Hélio Oiticica e Cildo Meireles, entre outros, só foram reconhecidos em todo seu valor no Brasil, segundo Aracy Amaral, depois que o crítico de arte inglês Guy Brett promoveu exposições de seus trabalhos no exterior. ‘‘Só daí emerge-se um interesse do mercado brasileiro.’’ Tarsila do Amaral só foi ser reconhecida pelo mercado de arte brasileiro na década de 60.
Mestre em História pela Universidade de São Paulo (USP), Aracy Amaral explica que a pintura de Tarsila do Amaral, nas décadas de 30 e 40, estava meio perdida. Isto em parte pelo contexto da época. Após a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929, o mundo vivia uma crise financeira. ‘‘A própria arte dos modernistas parecia ter perdido toda aquela inspiração’’, afirma Aracy Amaral.
Nesta traumática passagem da década de 20 para a de 30, a historiadora da arte e curadora, afirma que os artistas da década de 20 ficaram marginalizados. Apenas Flávio de Carvalho conseguiu se manter em destaque. ‘‘Tanto que na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, Tarsila assim como Alfredo Volpi e Anita Malfati não foram convidados. Eles tiveram que se inscrever para participar.’’
Esta falta de visão do meio cultural e artístico brasileiro em identificar seus valores assim que surgem, ainda hoje é uma reclamação dos artistas brasileiros, de acordo com Aracy Amaral. ‘‘Um lugar tem que ter condições de chamar a atenção da população sobre suas raízes, seu contexto cultural. É assim que você consegue fornecer para as novas gerações perspectivas de dignidade’’, avalia.
Tarsila do Amaral enquanto cronista alheia à sua importância enquanto artista plástica é um contraponto à Tarsila pintora da década de 20. Segundo Aracy, ela foi a pintora mais significativa do Brasil dentro do contexto do modernismo.
Sua capacidade em unir elementos da identidade brasileira com elementos das escolas internacionais de pós-cubismo, as mais modernas da época; sua invenção e audácia formal, de acordo com Aracy Amaral, que já escreveu diversos livros sobre a pintora, fizeram dela um dos grandes expoentes da pintura da década de 20.
A historiadora da arte destacou ainda os elementos surreais na obra de Tarsila do Amaral, que foram pouco estudados. ‘‘Ela une às memórias de infância na fazenda dos pais o elemento do surrealismo. O país onde o sonho ocupa um lugar muito importante.’’
A obra de Tarsila, na década de 20, é marcada pelo conteúdo da identidade brasileira. Nas exposições em Paris, em 1928, segundo Aracy Amaral, seus trabalhos têm a presença do colorido intenso, que chamou a atenção dos franceses pelo clima de tropicalidade. A própria Tarsila do Amaral afirmava na época que ‘‘o Brasil estava na moda por causa do seu exotismo’’.
Estes dados, na avaliação da historiadora da arte e curadora, mostram uma artista que aceitava nossa realidade e unia a ela elementos de qualidade plástica das escolas internacionais. ‘‘Ela une o dado internacional mesclado com dados da nossa realidade transpondo para a tela quase do inconsciente’’, explica Aracy Amaral. ‘‘Esta capacidade em fundir estes elementos é que fez de Tarsila do Amaral uma grande personalidade das artes plásticas da década de 20’’, finaliza.

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