Arquivo FolhaOswaldo
Diniz:
‘‘um furacão
passando
por uma
cidade
com
herança
rural,
conservadora’’No final dos anos 60 um sujeito costumava cantar ‘‘Quero que Tudo Vá Para o Inferno’’ a plenos pulmões na escadaria do edifício onde funcionava uma rádio londrinense. A gritaria tinha destinatário. Apresentador de ‘‘Brotos Somente Brotos’’, Oswaldo Diniz se revoltava contra a proibição de tocar a música em seu programa. De orientação religiosa, os proprietários da emissora riscaram a faixa do disco de Roberto Carlos. A resposta vinha nos ecos das escadas.
A irreverência de Oswaldo Diniz se destacou em Londrina, cidade em que revelou dotes de pianista, garçom, publicitário, apresentador de TV, rádio, ator e jornalista. Gostava de ressaltar o lema: ‘‘Vou lá e faço’’. E fazia.
Para homenagear Diniz, a coordenadoria de Cultura do Centro Acadêmico de Biblioteconomia da Universidade Estadual de Londrina se uniu ao jornalista Ricardo Abe para realizar uma exposição de fotos e material impresso sobre o agitador cultural que será inaugurada às 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, com a apresentação da peça ‘‘4º’’, montada pelo grupo Meta. A mostra, que ficará aberta até o dia 7, faz parte da Semana Oswaldo Diniz, evento que vem reunindo, desde segunda-feira, vários espetáculos teatrais.
‘‘Pode-se dizer que o Oswaldo Diniz é o pai da cultura pop de Londrina’’, comenta Ricardo Abe. O jornalista vem realizando, desde 95, um resgate histórico do rock na cidade e topou com o nome de Diniz. ‘‘Era um furacão passando por uma cidade com herança rural, conservadora’’, acentua.
Oswaldo Diniz chegou em Londrina em 1965 para uma apresentação teatral. Como sua família já morava na cidade, resolveu ficar. O grupo fez uma apresentação no programa de Aymoré Kley, na TV Coroados, que foi considerada um sucesso, e, posteriormente, Diniz foi convidado para ser um dos apresentadores da emissora.
A estréia ocorreu com ‘‘Bossa Total’’, ao lado de Haroldo Romano. Mas as dificuldades técnicas e a falta de novidades fizeram com que o programa durasse apenas seis meses. O agitado Diniz não desistiu: com um grupo de atores, montou vários teleteatros, também na Coroados.
‘‘A chegada de Diniz a Londrina coincidiu um pouco com o surgimento da beatlemania na região. Ele vinha do Estado de São Paulo e estava muito bem informado sobre acontecimentos que demoravam para chegar ao Norte do Paranᒒ, revela Abe. Por isso Oswaldo Diniz foi a escolha certa para comandar o ‘‘Ala Jovem’’, programa que recriava em Londrina a efervescência da Jovem Guarda, que assolava o eixo Rio-São Paulo.
Pioneirismo ‘‘Foi o primeiro programa do interior do Brasil voltado para o jovem. O Diniz tinha acesso ao VT de programas de São Paulo e utilizava a fórmula na região’’, assegura Abe, ressaltando que o ‘‘Ala Jovem’’ fazia grande sucesso: ‘‘O Diniz acabou incentivando o surgimento de vários grupos e se tornou uma espécie de cartão de visitas da emissora’’.
No teatro, Oswaldo Diniz montou - entre outras - ‘‘Revolução na América Latina’’ e teve que explicar para a censura que a peça não tinha conotações políticas. O espetáculo só foi liberado momentos antes da encenação, depois de muita conversa. ‘‘A peça tinha elementos de ‘O Rei da Vela’, de Oswald de Andrade, e trazia uma preocupação com iluminação e trilha sonora que ainda não existia na região’’, destaca Abe.
Outra das inovações de Oswaldo Diniz envolve a própria Folha. Ele transformou um caderno de classificados e anúncios, o ‘‘Caderno 3’’, em um suplemento cultural com diagramação revolucionária e temas polêmicos, como fotos de nus masculinos.
‘‘Ele foi o nome mais importante na cultura da cidade nesse período, e seus hábitos eram chocantes para muita gente, como manter uma vida noturna e não esconder preferências homossexuais’’, analisa Ricardo Abe. Em 74, Diniz se mandou novamente para São Paulo, onde permaneceu por nove anos. De volta a Londrina, abriu o bar ‘‘Pão, Filé e Cia’’, onde reunia amigos e contava casos engraçados. Em decorrência de uma enfermidade no esôfago, Oswaldo Diniz morreu em 1984, na capital paulista.
• Semana Oswaldo Diniz - Exposição com fotos e material impresso de Oswaldo Diniz, a partir das 21 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 113, em Londrina), onde será apresentada a peça ‘‘4º’’, com o grupo Meta. Hoje e sexta, às 10 horas, será apresentado o espetáculo ‘‘Loki?, do grupo Happy Hour, também no Zaqueu de Melo. Amanhã é a vez de ‘‘O Relógio do Coelhinho de Alice Lidell’’, do grupo Bombom Só É Bom com Licor, às 10 horas. Às 21 horas o grupo Meta volta ao palco para apresentar ‘‘Conta Comigo Suave como um Beijo’’, também no Zaqueu de Melo. Os ingressos custam R$ 5,00.

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