O legado de nosso samurai
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Mesmo sempre associado ao quadrinho nipônico, Claudio Seto, em uma de suas últimas entrevistas em vida, concedida à reportagem da FOLHA, negou ser um autor de mangá. Ao folhear um resumo de seu trabalho publicado nos anos 70, reunido em ''Flores Manchadas de Sangue'', da Devir Livraria, fica fácil entender a razão da declaração do artista: seria muito fácil encaixá-lo apenas como um autor de mangá.
Seto obviamente teve influência oriental, seja em um ou outro traço, nos temas e, principalmente, na dedicação e paciência ao transformar páginas em branco em poderosas cenas de ação e drama, em um momento paralisado no tempo, em uma narrativa capaz de fazer qualquer um viajar em tramas cheias de honra, lealdade, tradição. Como um boa história em quadrinho deve fazer.
O estilo do mangá está ali, em uma linha de ação ou outra no fundo, na exploração do ápice dos movimentos nas cenas de luta ou no uso do silêncio como ferramenta narrativa. Mas seria injusto dizer que ele fazia somente quadrinho japonês. Seto desenvolveu arte-final que dava mais vida aos seus personagens e sua habilidade com o nanquim aproximava sua arte às obras europeias.
Além disso, aquele perfeccionismo oriental nem sempre é tão evidente, afinal de contas, Seto conseguiu aproveitar também a irregularidade de seus traços em uma ferramenta a seu favor, em prol da narrativa. Tudo de um jeito assim, meio intuitivo, mas que só poderia vir por meio da experiência e do talento. O material de ''Flores Manchadas de Sangue'' foi produzido há 40 anos, quando foi publicado pela Editora Edrel, na revista ''Histórias de Samurai''.
As histórias reunidas pela Devir -''Flores Manchadas de Sangue'', ''O Monge Maldito'', ''Idealismo Frustrado'', ''O Sósia'' e ''A Flor Maldita'' -, escolhidas pelo próprio Seto antes de sua morte, em novembro do ano passado, não são apenas um registro do trabalho de um dos maiores artistas nacionais. São também inspiração para milhares de garotos, que assim como ele, um dia sonharam em fazer quadrinhos.
Sábados dos meus amores -
Quando alguém diz que quadrinho é literatura muita gente torce o nariz e não consegue enxergar relação alguma entre uma linguagem e outra. Talvez por preconceito, por não compreender a estrutura ou as características de ambas ou simplesmente por não ter um exemplo prático para demonstrar isso, como ''Sábado dos meus amores'', de Marcello Quintanilha, lançado recentemente pela Conrad Editora, do Grupo IBEP-Nacional.
Quintanilha, autor experiente no cenário nacional, trabalhou por algum tempo com o pseudônimo de Marcello Gaú e já passou por publicações importantes do quadrinho brasileiro e há pouco tempo, em 2005, foi o escolhido pela editora Casa 21 para desenhar Salvador no projeto ''Cidades Ilustradas''.
O autor, hoje radicado em Barcelona, onde produz seus quadrinhos para a editora belga Editions du Lombard e os jornais La Vanguardia e El País, conquistou prêmios na Bienal Internacional do Rio de Janeiro, em 1991 e 1993, além de ser também reverenciado no 1º Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, em 1999.
Tudo isso credencia o autor a ser considerado um de nossos melhores cronistas gráficos, especialmente após a leitura de ''Sábado dos meus amores''. Declaradamente influenciado por Rubem Braga e Nelson Pereira dos Santos, Quintanilha transforma poesia e eventos cotidianos em contos urbanos tragicômicos.
Não se convenceu de que quadrinhos também pode ser literatura? Então basta ler ''De como Djalma Branco perdeu o amigo em dia de jogo''. Provavelmente vai mudar de opinião.
SERVIÇO
- Flores Manchadas de Sangue tem 128 páginas no formato 21 x 27 cm e custa R$ 28.
- Sábado dos Meus Amores tem 64 páginas no formato 21 x 27 cm e custa R$ 39.


