O latin lover se transforma
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de agosto de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Sua fama de latin lover já se espalhou como o odor de um perfume adocicado. Daqueles que empesteiam ambiente, roupas e lençóis e tonteiam quem tem alergia a fragrâncias baratas. Mas ao que tudo indica, o cantor e compositor Wando está revendo o marketing que sempre o colocou como o garanhão, o irresistível, o ícone mais erótico do mundo fonográfico brasileiro. Acreditem se quiser: em nenhuma faixa de seu mais novo disco - Palavras Inocentes (Universal) - ele canta a palavra tesão.
Gente, Wando mudou! Quer dizer, continua cantando suas lenga-lengas românticas só que desta vez sem apelações. Em seu 24º disco, o autor de Moça resolveu falar de amor e desamor sem dar a entender, como nos trabalhos anteriores, que sofre de priapismo e que, portanto, precisa aliviar-se ou sublimar-se através de canções picantes. O resultado final não deve arranhar seu prestígio perante a opinião de suas fãs. Mas que é estranha essa mudança de comportamento a essa altura do campeonato, ah, isso é!
As baladas românticas, claro, predominam. Das 14 faixas, Wando assina oito (algumas em parcerias). A reviravolta de postura, entretanto, só não coloca Wando no mesmo patamar de descartáveis intérpretes românticos porque ele é uma referência. Queiram ou não, o distinto já tem seu lugar de honra no gosto popular. É uma espécie de divindade que até hoje recebe como oferenda calcinhas e outros objetos eróticos atirados no palco por fãs mais exaltadas.
Mesmo com uma postura mais, digamos, sóbria em seu novo disco Wando ainda desperta fantasia em suas fãs. A diferença é que desta vez ele se apresenta como um cavalheiro disfarçado de amante latino. O formato é o mesmo, o latin lover continua. Só que nesse disco as palavras são melhor colocadas- avisa Wando. Esse disco ainda convida para ir à cama só que agora peço licença, mando rosas, digo que champagne é maravilhoso complementa.
Uma prova irrefutável de que Wando mudou, ou quer mudar, é a faixa Vizinho da janela (dele com Fernando Mendes) em que ele, vejam só, se contenta em ser apenas um voyeur. Sou o seu vizinho da janela azul/toda noite vejo seu corpo nu/Que vontade tenho de te confessar/ e ao seu lado me deitar/(...)Você me provoca quando tira o jeans/Mostra tudo só pra mim, só pra mim. Fosse em outra época, Wando já teria pulado a janela, resolvido a pendenga e contado tudo tintim por tintim.
Popular assumido, Palavras Inocentes fala do amor sem firulas. Letras e músicas, se analisadas por essa ótica, possuem um entrosamento tão singular que certamente vão conquistar dials das rádios espalhadas pelo Brasil. E, obviamente, uma ou outra faixa deve ser pinçada para compor a trilha sonora de alguma futura novela.
O disco abre com uma dor-de- cotovelo daquelas, expressa em Eu Podia Ter Caído Fora (Wando-Annibelle) e fecha com a até interessante Guaraná, Guarani (Altay Veloso-Aladim) que fala do amor por uma mulher de outro mundo. Sim, esse disco fala do desamor mas na base do não me deixe. Fala do medo que todos têm de perder a pessoa que mais querem- justifica Wando.
Se antes os casos de amor para Wando começavam e terminavam inevitavelmente na cama, agora, nessa fase de meiguice e ternura, podem perfeitamente iniciar-se em outros locais. Começou no elevador (Altay Veloso) é um bom exemplo.
Pelo sugestivo título da canção poderia-se imaginar que a coisa pegou fogo e quase arrebenta os cabos de aço que sustentam o compartimento. Mas não: houve apenas troca de olhares e uma paixão platônica. Nesse disco eu queria falar do amor de uma maneira diferente já que atualmente muitas músicas falam de casos que começam na grama e terminam na cama- filosofa. Hum!! Só uma perguntinha: essa fase politicamente correta vai durar quanto tempo mesmo?


