O lago que virou pântano
A historiografia brasileira que, de uma maneira geral, parece andar em círculos cercando sempre os mesmos temas, também é capaz de oferecer inesperadas surpresas. Este é o caso de História de um País Distante - O Pantanal Entre os Séculos XVI e XVIII obra de Maria de Fátima Costa, historiadora e professora da Universidade Federal de Mato Grosso.
Publicado pela Editora Estação Liberdade, o livro oferece um estudo sobre a região geográfica que conhecemos como Pantanal baseados em documentos de difícil acesso e outros totalmente inéditos da colonização portuguesa e espanhola. A região que colocou gasolina azul no imaginário europeu a partir do século 16, foi encarada de duas maneira completamente diferentes e independentes. Primeiro pelos exploradores espanhóis, depois pelos portugueses.
Os primeiros exploradores espanhóis do século 16, que aportaram na América do Sul, entraram pela foz do Rio da Prata (entre Uruguai e Argentina) e navegaram continente adentro pelo Rio Paraná e depois pelo Rio Paraguai. Chegaram numa região que recebeu o adjetivo de paraíso terrestre, entre a atual Paraguai, Bolívia e o Mato Grosso. Acreditando tratar-se de um imenso lago deram à região o nome de Laguna e, posteriormente, Laguna de los Xarayes em homenagem a uma das nações indígenas que habitavam a região. Um rico imaginário fantástico nasceu desse encontro, entre eles destacam-se a lenda do Eldorado, das guerreiras Amazonas e da existência de gigantes de três metros de altura.
Os portugueses começaram a explorar o local, de maneira mais expansiva, somente no século 18. Desconhecendo completamente as informações e mapas que os espanhóis haviam esboçados, passaram a designar a região como campos alagados, mais especificamente como Pantanais. Para Maria de Fátima Costa, no horizonte histórico, portanto, o Pantanal aparece como uma invenção luso-brasileira tendo sua origem em meados do século 18. A denominação propriamente dita, foi dada pelos mamelucos paulistas que passaram a percorrer a região durante as monções.
Durante muito tempo essas duas visões e denominações conviveram paralelamente a Laguna de los Xarayes do lado castelhano e o Pantanal do lado luso-brasileiro. A segunda visão ganhou corpo devido à supremacia política portuguesa na área conquistada.
Em História de um País Inexistente, a autora sugere que, pelos ciclos sazonais que transformavam a geografia do local, entre constantes cheias e secas, os colonizadores, tanto espanhóis como portugueses, estavam diante de uma paisagem móvel, instável. Esse seria uma dos fatores que alimentaram o desenvolvimento de uma geografia imaginária: Em quase três séculos, descobridores, conquistadores e colonizadores viram-se diante de um território evanescente. À medida que a geografia parecia querer fechar as portas de acesso físico, o homem abria outras as de sua fantasia para penetrar por vias imaginárias. Por este caminho inventaram-se maravilhas, sejam elas riquezas gigantescas, de povos fantásticos ou da presença de entidade sobre-humanas. É dessa maneira que o Pantanal se insere no paradigma da compreensão ambivalente que a Europa criou sobre o continente americano.
Exemplos como esse, da invenção do Pantanal (que nos últimos anos foi por sua vez reinventado como paraíso ecológico) levam a crer que, em algumas situações, a história pode se tornar literatura e a literatura, história. Como nos versos de Manoel de Barros:No Pantanal ninguém pode passar a régua. Sobretudo quando chove. A régua é existidura de limites. E o Pantanal não tem limites. (M.L.)
História de um País Inexistente - O Pantanal entre os séculos XVI E XVIII de Maria de Fátima Costa, Editora Estação Liberdade/Livraria Kosmos Editora, 280 páginas, 24 pranchas coloridas, R$ 34,00.





