O LADRÃO DE OLHARES
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de outubro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Londrina 
Perplexos, sofredores, amedrontados. São os olhares de alguns pacientes na sala de espera de um dentista, em 1946. A capturar essas expressões, um jovem repórter fotográfico chamado Stanley Kubrick. Aos 21 anos, o futuro diretor de obras-primas como ''2001, Uma Odisséia no Espaço'' e ''Dr. Strangelove'' trabalhava então na redação da revista americana ''Look'', e por cinco anos (1945-49) assinou uma série de reportagens agora expostas em Veneza, num dos eventos obrigatórios oferecidos paralelamente à 58ª Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica. O detalhe é que os originais destas fotos nunca foram encontrados, e o material que se vê em Veneza foi obtido de microfilmes a partir da própria revista ''Look''. São, portanto, fotografias de fotografias, algumas granuladas em razão do processo com que foram obtidas. Mas nítidas, precisas o suficiente para conhecer em detalhes esta espécie de batismo kubrickiano, definitivo para a obtenção de pontos de vista personalíssimos ao longo de uma extensa, primorosa galeria de planos que sempre privilegiou o espaço e a perspectiva.
A exposição, batizada ''Ladro di Sguardi'' (ladrão de olhares), apresenta 59 registros que atestam a ampla afinidade de Kubrick com a fotografia. Mas a fotografia como arte solitária, aquela do voyeur, característica de resto dominante em sua idade adulta. Nas fotos daquele período, já se nota também a marca que outros dois grandes estetas - Orson Welles e David Lean - reconheciam em Kubrick: a capacidade de conferir às imagens uma equivalência narrativa. Não por acaso, sua ilimitada curiosidade intelectual o levou invariavelmente em direção a lugares onde as pessoas observavam determinada coisa: um jardim zoológico, para contar ''como os homens olham uma macaca'' num domingo à tarde; um estádio de futebol, flagrando uma torcida de garotos entre desesperados e eufóricos. A máquina, uma grande e pesada Graflex, disfarçada numa enorme bolsa com um furo lateral para a objetiva e outro no alto, para o enquadramento: quase instantâneos, fotos ''roubadas'' à vida.
Ao futuro diretor não interessa tanto a bela imagem. Desde já parece raciocinar por sequências, no ato de fotografar já existe um projeto narrativo bem preciso. Isto se confirma num longo, ambicioso ensaio-reportagem sobre um jovem pugilista profissional, Walter Cartier, realizado em 1949 e base para seu primeiro curta metragem, ''Day of the Fight'', de 1950 - para Kubrick, o fascínio do boxe estava na violência transformada em arte. As imagens sequenciam vários momentos da vida do pugilista: a expectativa antes da balança, os treinamentos, o jantar em casa, as folgas e o barco, o passeio à noite com um amigo, a conversa jogada fora, o sapato amarrado sobre um hidrante. E obviamente os momentos dramáticos no ringue, a luta em Jersey City, a vitória por nocaute.
As luzes, a composição, a estrutura dos instantâneos são um presságio de que a máquina fotográfica logo seria abandonada pelo original repórter. Tão original a ponto de, junto com um amigo, se esconder num cinema e promover uma espécie de ''candid camera'' com uma bela desconhecida. Indignada com o assédio do tal amigo, com um bofetão a moça interrompe a sequência de fotos realizada com película ultra-sensível em 1946.


