O lado subjetivo da história
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de janeiro de 2002
Marcos Losnak 
Ao observar as mãos de uma pessoa, geralmente centramos o foco de visão nas formas. Observamos vários aspectos como o tamanho dos dedos, a espessura, o formato das unhas, as linhas, etc. Dificilmente nos atemos aos vãos dos dedos. Na verdade chegamos a desprezar os vãos por tratá-los como uma espécie de nada entre os dedos
Quando observamos uma mão, geralmente não nos damos conta de que os vãos dos dedos são justamente o componente que faz com que a mão exista. É o vão que desenha sua forma e torna visível as particularidades dos dedos. Sem o nada a mão não seria mão, seria nada.
Pode-se dizer que a distância entre os dedos é que faz a mão. Do mesmo modo como a distância entre os homens determina as particularidades de uma civilização. E a distância entre as civilizações determina os caminhos da história. Nesse caso, não a distância física, mas a distância que constrói o pensamento que delineia as diferenças entre o eu e o outro.
Esse é o tema do novo livro do historiador italiano Carlo Ginzburg publicado pela Companhia das Letras. Olhos de Madeira reúne nove ensaios focalizando a distância como um território onde a cultura ocidental, especialmente a européia, gerou sua visão de mundo.
Carlo Ginzburg, professor da Universidade da Califórnia, pertence a uma nova vertente acadêmica que revela como as sutilezas podem oferecer informações para uma leitura mais abrangente da história. Seu livro mais conhecido, O Queijo e os Vermes - O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, tornou-se referência na área.
Em Olhos de Madeira, faz uso de uma idéia subjetiva da distância. Em seu estilo de pensamento, o historiador não apresenta ao leitor conclusões prontas e exatas. Apresenta, de maneira geral, o caminho de seu raciocínio. A conclusão final, embora latente no decorrer do texto, fica por conta do leitor que é convidado a ir além e desenvolver um pensamento complementar.
Refletindo sobre idéias conflitantes, Ginzburg demostra como elas podem ser complementares. Assim, a distância tanto pode estabelecer a noção de conflito como a noção de entendimento. E quando perdemos um dos dedos da mão, a distância criada descreve de maneira clara a forma do dedo que deixou de existir.
A realidade não é feita apenas pelas coisas que aparecem.
Serviço: Olhos de Madeira - nove reflexões sobre a distância, de Carlo Ginzburg, Editora Companhia das Letras (telefone (11) 3846-0801), tradução de Eduardo Brandão, 312 páginas, R$ 28,00.


