Liane Faccio
Agência Estado
Atores costumam rechaçar comparações com seus personagens, mas quem imaginaria que Bussunda, do programa Casseta & Planeta, Urgente!, é um ator muito sério? O personagem é o escracho em pessoa, mas seu criador, Cláudio Besserman Vianna, não é de sair contando piadas ou distribuindo sorrisos à toa. ‘‘Eu me sentiria muito bobo se fosse sempre o que sou na televisão’’, diz ele.
Bussunda é o mais popular dos Cassetas, seguido de Hélio de La Peña - e a razão da preferência até virou piada. ‘‘A brincadeira interna é que as aberrações é que ficam mais famosas’’, conta o empresário do grupo, Manfredo Barreto. ‘‘Um é gordo (Bussunda pesa 117 quilos), outro é preto, e que não venham as minorias reclamar, debochamos de todas.’’
A imagem que mais se aproxima da verdade sobre Bussunda é a que foi mostrada pela Globo durante a transmissão do jogo do Brasil com o Paraguai, direto do Chile, semana passada. Localizado na arquibancada, o semblante concentrado do humorista foi flagrado. Sua timidez também é notória e freia um pouco a ansiedade dos fãs, como aconteceu com o grupo que o abordou para pedir autógrafos e fotos no aeroporto de Congonhas no dia 26 de junho.
Aquela era uma tarde especial. Em São Paulo desde a manhã para a gravação de um comercial da rede de supermercados Carrefour, Bussunda corria contra o relógio para chegar em sua casa, no Rio, e comemorar os 37 anos de idade, completados naquele dia, com a família. Quem imaginaria que ele é um cara assim, tão família?
O caçula de três irmãos é um pai coruja e foi o típico adolescente problema. ‘‘Era considerado um caso perdido’’, admite. O auge do desajuste se deu aos 16 anos, idade em que conseguiu a proeza de tirar zero em dez matérias, ser expulso do colégio Princesa Isabel e matar seis meses de aula de inglês. ‘‘Entrei numas, pensei até em fazer análise.’
Naquela vez, o filho rebelde ouviu os conselhos maternos. ‘‘Espera um mês, se a vontade de fazer análise não passar, você faz’’, foi a dica dada por ela, a psicanalista Helena Besserman Vianna. ‘‘Brinco que fiz 23 anos de análise porque morei com minha mãe durante 23 anos.’’
Helena estava certa. Um mês foi suficiente para que se amainasse a crise, que desapareceu pouco mais de um ano depois. Aos 18 anos, o então estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro se aliou a um grupo formado por outros alunos, Hélio Antônio do Couto Filho, o Hélio de La Peña, Roberto Adler, o Beto Silva, e Marcelo Garmatter Barreto, o Marcelo Madureira. Formado por ex-militantes do PCB, o trio editava o despretensioso jornalzinho mimeografado Casseta Popular - o embrião do atual Casseta & Planeta.
Para Bussunda, o jornalzinho foi a salvação. ‘‘Fui salvo pelo humor’’, diz ele. ‘‘Passei a me concentrar em alguma coisa, comecei a mudar.’’
As mudanças não pararam mais. Bussunda descobriu que adora estudar. Vai passar férias na Itália, em agosto, e já comprou três livros diferentes sobre história, cultura e arte italianas. Cabulava tantas aulas porque, como percebeu, não consegue gostar do esquema. ‘‘O esquema é para formar um tipo de pessoa que eu não sou’’, afirma um dos principais redatores de um dos mais criativos grupos de humor, o Casseta & Planeta, que mudou a face do humor na televisão.
Bem que ele tentou ter trabalhos burocráticos. ‘‘Desisti, dava bode receber ordens’’, explica - logo ele, que tem como patrão Roberto Marinho. ‘‘Meu patrão é um dos homens mais poderosos do País, mas eu sou patrão do meu tempo.’’
Algo em que ele jamais imaginou se tornar parece que já começou a acontecer. Graças ao jornalzinho, que virou show e chegou à televisão, Bussunda se tornou ator. ‘‘Fomos evoluindo no programa, agora me considero um ator’’, conta. ‘‘Fui convidado para atuar em um filme que não é de humor. Achei legal. Estamos negociando.’’ O próprio Bussunda acha que será difícil não cair na gargalhada. ‘‘Toda vez que tentei escrever uma coisa séria comecei a sacanear’’, compara.
Afinal, por que a seriedade tem tanto a ver com a vida dele? ‘‘Acho que é porque a gente, que é humorista, é muito crítico.’’

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