O melro de Paul McCartney já tem onde pousar para dar seus arrulhos em português. O primeiro livro de poemas do ex-beatle, ‘‘Blackbird Singing: Lyrics and Poems, 1965-1999’’, que foi lançado primeiramente no Reino Unido (Faber and Faber, 164 págs., cerca de R$ 44,90), teve seus direitos para o português comprados pela Geração Editorial. A edição, bilíngue, será lançada na Bienal do Livro, em maio, no Rio de Janeiro.
O editor da Geração, Luiz Fernando Emediato, se admira de a Faber ter aceito de cara a proposta de adiantamento que ele fez: US$ 2,5 mil. Como este custo não foi tão alto – ele pagou há pouco US$ 10 mil por um romance histórico inacabado –, o livro deve sair para o consumidor por um preço entre R$ 20 e R$ 26.
O editor agora espera a resposta de McCartney ao convite que ele lhe fez para que venha autografar a versão nacional – que manterá a capa criada pelo ex-Beatle e o título em inglês, apenas traduzido em letras pequenas, para algo como ‘‘O Canto do Melro’’.
A tradução, aliás, ficou a cargo do letrista mineiro Márcio Borges. Ele diz que já fez ‘‘uma mala cheia, tradução do grego, alemão, espanhol. Sempre fui considerado parceiro do Milton, o cara do Clube da Esquina, mas é uma das coisas mais velhas que faço.’’
Após traduzir os 97 textos, resolveu ‘‘topar o desafio’’ de fazer versões de dez das letras do volume – ou seja, verter as letras para que, em português, se encaixem na melodia original.
Deixa claro, porém, que se obrigou a ser ‘‘absolutamente fiel’’ a McCartney. ‘‘Não é, por exemplo, traduzir ‘‘Penny Lane’ por ‘‘meu amor’ para caber na música.’’ ‘‘Mas não é um livro para ser cantado. Fiz as versões porque muitos fãs aqui não sabem inglês suficiente para entender o sabor local, o cotidiano nas letras.’’
A julgar pela recepção da antologia nos jornais ingleses, Borges foi sábio. ‘‘Letras com música podem ter o efeito de um poema. Isso não faz de letras poemas’’, diz crítica no ‘‘The Independent’’, que dispara: ‘‘Desconhecendo a autoria, você mandaria os textos diretamente para a pilha dos rejeitados’’.
‘‘O fato de que Adrian Mitchell (editor do livro) tenha tido de convencer McCartney a incluir as letras me assusta; sem elas, o livro seria uma caricatura’’, diz o ‘‘The Guardian’’, que metralha, sem dó: ‘‘A única razão pela qual encorajaria as pessoas a comprarem este livro é a possibilidade de que a Faber use parte do lucro para publicar poetas significativos’’.
O mesmo ‘‘Guardian’’, em outro texto, compara os poemas a ‘‘esboços’’. ‘‘Como seria de esperar de um primeiro volume de um poeta aspirante (aparte o fato de que o poeta foi um compositor magistral por quatro décadas)’’.

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