O lado oculto de Dali
O lado oculto de Dali
Biografia escrita
por Ian Gibson
mostra complexos
e vergonhas
disfarçados por
Salvador Dalí
Carlos Haag
Agência Estado
ReproduçãoSalvador Dalí: arrogância escondia fragilidade em aspectos da vida como sexo e o temor da genética suicida
E
le não tinha pudores para proclamar: Sou um gênio, o maior pintor vivo; sou divino, monarquista, franquista, adoro o dinheiro, amo os dólares e Gala, a minha única mulher e amante, com quem perdi a virgindade aos 25 anos de idade. Logo, é difícil acreditar que por baixo do bufão arrogante e talentoso de bigodes retorcidos Salvador Dalí (1904-1989) havia um adolescente inseguro que morria de vergonha da sua própria existência. Mas essa é a tese de Ian Gibson, autor da célebre e definitiva história de Garcia Lorca, e que lançou no mês passado na Europa The Shameful Life of Salvador Dalí (A Vida Vergonhosa de Salvador Dalí), da Faber and Faber (760 páginas, US$ 49,95), biografia que traz novidades bombásticas sobre a mais controvertida personalidade da história da arte moderna.
Mas não basta conhecer os podres do Avida Dollars (anagrama genial e ácido criado por Andre Breton, para espinafrar o comercialismo do antigo companheiro de armas surrealistas). É preciso, acima de tudo, conhecer sua obra.
Por bem ou por mal, Dalí, com sua figura exótica, levou multidões a aceitar a presença de uma arte moderna agressiva e menos comportada e confortável do que os tradicionalismos a que muitos estavam acostumados, diz Ian Gibson. O autor foi chamado, em 1986, pelo próprio pintor, a visitá-lo em seu castelo medieval de Pubol. Já tentara entrar em contato com ele antes, quando escrevia a vida de Lorca, mas ele sempre se negou a me receber; por isso, foi um susto receber esse convite de um homem que estava doente, um saco de ossos que mal conseguia falar, lembra o biógrafo.
Ele queria desabafar e contar a sua relação com Lorca, antes que fosse tarde demais: naquela tarde, decidi que abandonaria o projeto de uma biografia de Bu¤uel para fazer a de Dalí, conta Gibson. O seu estudo centra-se no período de formação do artista, dos 20 aos 40 anos, ou seja, a transformação do radical artístico de província num dos expoentes do movimento surrealista em Paris. O Dalí grande está nesses extremos, o seu ápice produtivo, em especial no seu encontro com Breton e na sua inserção no surrealismo, a cuja força de mudança revolucionária ele se dedicou, com fervor religioso, por alguns anos.
Pesquisando em diários recém-descobertos do pintor, Gibson encontrou citações que mostravam o entusiasmo de Dalí pelas mudanças. Ele via o movimento surrealista como revolução e revelação, algo capaz de, ao mudar o indivíduo colocando-o em contato com o seu inconsciente transformar a sociedade, da mesma forma que o marxismo, chegando mesmo a achar as duas correntes compatíveis, analisa. Dalí, nesses diários, chega a se descrever como um marxista que era totalmente dedicado à mensagem do ideário surrealista.
Mas uma marca trazida da sua adolescência tirou o pintor da fraternidade onírica para jogá-lo, mais uma vez, na arrogância solitária. A chave para entender Dalí é que ele nunca superou os traumas e a vergonha de sua juventude: vergonha do corpo, da sexualidade e da sensação de ser inferior ao pai e aos outros amigos, ressalta Gibson. Para sobreviver, ele criou essa persona detestável e exibida, mas pagou um alto preço por ter que viver até o fim escondido nessa máscara, que protegia o adolescente frágil e assustado.
Difícil imaginar um Dalí tímido, mas o biógrafo recolheu evidências em seus escritos e em suas telas. Em boa parte de seus quadros em que há cenas de sexo, essas são testemunhadas por um jovem que esconde seu rosto: um motivo recorrente, inédito na história da arte, algo desprezado pelos críticos, avisa. Não conheço outro pintor que tenha expressado com tanta veemência a sua vergonha diante da sexualidade, completa Gibson.
O exibicionista salva o inferiorizado, que via sua única fonte de salvação na persona dedicada a fazer coisas vergonhosas, afrontando amigos e inimigos. Nesse contexto, também está a sua ruptura com Breton, pois, para tentar agradar ao pai, um conservador linha-dura, Dalí aproximou-se de Hitler, Franco e do fascismo, a um tal ponto que os colegas de movimento não puderam mais suportá-lo. Em 1939, separou-se deles. Foi o ponto de inflexão em que decidiu que o mais importante no mundo era Dalí e ele seria o único sobrevivente do surrealismo; ao afastar-se, iniciou a sua decadência.
Isso faz sentido face ao desejo de sempre se refugiar na sua máscara pessoal; logo, era natural que rompesse com um grupo e fugisse para o seu egocentrismo autoprotetor, analisa o autor. Só lhe faltava um porto seguro. Ao encontrar Gala, ele pôs fim a boa parte de suas angústias, pois ela era um bálsamo para suas inseguranças emocionais e para o seu sentimento de vergonha e miséria sexual, avalia. Mas engana-se quem, como Breton, viu na russa atômica Gala a fonte da prostituição artística a que Dalí se entregou, após voltar de uma longa viagem aos Estados Unidos. .
Ele fez questão de dizer que já era o que era desde sempre, e Gala apenas organizou a sua fome de fama, dando-lhe encorajamento, organização prática e disciplina criativa; ambos eram monstros que se mereciam, acredita. A relação, intensa, não incluía, porém, a sexualidade que Dalí tanto exibia em seus quadros da mulher nua. Após os primeiros meses de união, eles não mais tiveram relações sexuais: Gala entregou-se a seus amantes e ele às suas fantasias masturbatórias, em que podia evitar o toque pessoal do corpo feminino.





