O lado obscuro da alma feminina
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 1998
Érika Pelegrino 
Gil Grossi/DivulgaçãoAs bruxas tragicômicas de Irmãs do Tempo são obcecadas por poder, sexo e comidaDança-teatro, besteirol e tragicomédia estão nas apresentações do Festival de Teatro de Londrina, hoje, a partir das 19 horas. O grupo londrinense Meta é o primeiro a se apresentar com o espetáculo Copacabana Beach, no Teatro Zaqueu de Melo, às 19 horas. O Cênico Nós da Dança, grupo do Sesc de Londrina, apresenta-se às 21 horas no Cine-Teatro Ouro Verde, com o espetáculo Poema da Tragédia. Irmãs do Tempo, grupo de São Paulo, apresenta-se com o espetáculo As Bruxas, no Núcleo 1, às 23 horas.
As bruxas de Macbeth, de William Shakespeare, saem do plano secundário e tornam-se protagonistas em As Bruxas. O universo feminino é explorado pelo grupo a partir das trágicas bruxas de Macbeth, de William Shakespeare. Inspiradas nestas criaturas, Neca Zarvos e Raquel Ornellas, atrizes do Irmãs do Tempo e autoras do texto, com colaboração de Claudia Vasconcelos, recriam uma história tragicômica sobre todas as outras bruxas: a bruxa da vizinha, a estridente, a deformada, a prazerosa, a mutilada e as bruxas dos contos de fadas.
Na versão de Neca e Raquel, Macbeth é instigado pelas bruxas para se apoderar do trono do rei. Elas planejam a sua morte, mas perdem o controle de seus feitiços e enfrentam consequências estrondosas que acabam em tragédia. Macbeth, ao tornar-se rei, manda matar todos que ameaçam seu poder. As bruxas, por sua vez, sentem-se traídas e decidem enfrentá-lo.
As personagens de Neca e Raquel não são tão maquiavélicas quanto as de Shakespeare. Elas são cruéis, mas ao mesmo tempo são irresponsáveis, patéticas. Na tentativa de serem agentes do destino, acabam sendo objetos, conta Neca Zarvos.
As bruxas misturam-se a outras mulheres grotescas de nosso imaginário, focalizando suas histórias nas quais tecem e manipulam vidas. Neca Zarvos explica que o jogo entre elas é parte de um jogo maior onde são chamadas para fortalecer ou derrubar, mas acabam sofrendo com as situações criadas. As bruxas perdem o controle da situação ao cometer o erro fatal de entrar no âmbito humano da paixão e curiosidade.
Para recuperar o comando, entram em rituais de feitiçaria, vudus e conjuros, fazendo uso de seus próprios corpos e ações para levar seus malefícios e benefícios aos escolhidos.
A versão das atrizes traz ainda acontecimentos reais. Durante o trabalho de pesquisa de As Bruxas as atrizes se depararam com a realidade violenta e cruel do assassinato do índio Galdino em Brasília, por jovens da classe média, quedas de aviões, explosão do Osasco Plaza Shopping, em São Paulo. Ficamos espantadas, será que aquilo era coisa do destino, coisa de bruxa?, lembra Neca Zarvos. Resolvemos então inserir estas tragédias na história.
Estes acontecimentos violentos surgem em As Bruxas, revelando o lado sombrio da alma humana dominada pela inveja, obsessão, poder, raiva. Segundo Neca Zarvos, as tragédias do índio, do shopping, da queda de aviões, são colocadas na peça na parte em que Macbeth enlouquece acreditando que todos querem traí-lo. Mostramos estas tragédias como uma energia que Macbeth coloca em movimento atraindo diversas catástrofes.
A idéia do espetáculo, dirigido por Armando Sérgio e Regina Mendes, nasceu durante os exercícios de voz que as atrizes praticam através da técnica de voz em movimento de Madalena Bernardes, que integra corpo, voz e emoção. Durante uma improvisação surgiu uma bruxa, conta Neca Zarvos. Percebemos então que precisávamos trabalhar com texto também.
As bruxas de Macbeth, para as atrizes, eram as mais interessantes. Resolvemos colocá-las então como protagonistas. Contar a história a partir do ponto de vista delas, afirma Neca Zarvos. Esta é a primeira peça do grupo Irmãs do Tempo, que está trabalhando há três anos. Esta peça é o resultado do nosso trabalho. O trabalho de voz das atrizes é mostrado no espetáculo através dos sons de trovões, cavalos e outros barulhos estranhos que são feitos por elas mesmas.
Neca Zarvos atuou em espetáculos de dança com os grupos de Nancy Stark Smith, em 1992 e Tica Lemos, em 1990/94. No currículo da atriz está ainda o workshop Contact Improvisation, com Daniel Lepkoff e Karen Nelson, nos Estados Unidos. Raquel Ornellas é mestranda em Artes Cênicas pela USP, atuou, entre outras, na peça Astiânax, de Eduardo Bonito (1994/95), em Torturas de um Coração, de Ariano Suassuna, direção de Ana Maria Amaral (1993/94), entre outros. O espetáculo tem 1 hora e 10 minutos de duração.


