Foto: Waldemar NiclevizQuando Krakauer pisou em solo seguro, ao pé do Everest, cinco integrantes de sua expedição estavam mortosEle é uma entidade que resume a mais concorrida aspiração dos homens contemporâneos: chegar ao topo do mundo, ao lugar mais alto dos altos lugares. Situado no Himalaia, entre o Nepal e o Tibete sob domínio chinês, é chamado pelos tibetanos de Sagarmatha (Teto do Céu) de Chomolungma (Deusa Mãe do Mundo) pelos nepaleses. Trata-se da maior montanha do mundo, a mais alta da Terra com 8.848 metros de altitude. No ocidente é conhecida pelo nome de Monte Everest, o grande desafio de milhares de alpinistas e aventureiros.
Chegar ao pico é um ato heróico, reconhecido por todos os pacatos mortais como um feito surpreendente, revela a coragem e determinação dos que conseguem chegar lá. Os dois grandes desafios são o ar rarefeito das altas altitudes, que reduz em um terço o oxigênio existente ao nível do mar, e as altas temperaturas, que podem chegar a 80 graus abaixo de zero.
Entre as dezenas de livros escritos por alpinistas relatando os desafios e as virtudes da escalada ao pico do Evereste, chega às livraria um depoimento diferente, onde o sofrimento não é superado pela conquista. ‘‘No Ar Rarefeito’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, revela o lado trágico desta aventura que assumiu a imagem de totem para a auto-afirmação humana, chegar ao topo do mundo. Escrito em tom confessional pelo alpinista e jornalista norte-americano Jon Krakauer, o livro é uma tentativa de expurgar o Everest de sua vida. Em 1996, durante escalada ao topo, ele assistiu a morte de várias pessoas.
Jon Krakauer havia recebido a missão de realizar uma reportagem para a revista ‘‘Outside’’ sobre as crescentes e polêmicas expedições comerciais ao Everest. O que seria uma simples reportagem, tornou-se um desafio quando Krakauer foi integrado como cliente da expedição chefiada pelo famoso guia Rob Hall.
Na primavera de 1996 haviam 30 expedições distintas escalando o Everest, 10 delas haviam sido organizadas com fins lucrativos. Havia pelo menos 5
sites na Internet publicando boletins sucessivos, fax e telefone ligados via satélites, e todo tipo de estrutura para transformar a aventura num grande show. Cada cliente, a grande maioria alpinistas inexperientes, pagavam até 65 mil dólares para serem conduzidos até o topo do mundo.
Quando Krakauer pisou em solo seguro, ao pé do Everest, cinco integrantes de sua expedição estavam mortos, inclusive Hall, o guia. Outras sete pessoas, de expedições diferentes, também haviam padecido na escalada. Outras precisaram amputar mãos e pés congelados em processo de necrose.
‘‘No Ar Rarafeito’’ é um relato sobre uma outra ótica do feito heróico de se alcançar o pico da montanha mais alta do mundo. ‘‘O Everest sempre foi um ímã para os meios tantãs, para os amantes da autopromoção, para os românticos inveterados e outros com um fraco domínio sobre a realidade.’’ - escreve Krakauer. Seu depoimento coloca abaixo o mito da cultuada virtude do heroísmo humano. Tudo que seria uma grande conquista capaz de provar as virtudes dos aventureiros, nas a realidade revela toda a maquinaria mesquinha dos homens. Sua frieza é aquela de alguém que precisou pular os cadáveres congelados no caminho: ‘‘Chegar ao topo do Everest supostamente desencadeia uma onda de intensa alegria; apesar de todos os pesares, eu atingira uma meta cobiçada desde a infância. Porém o topo era, na verdade, apenas a metade de um caminho. Qualquer impulso que eu pudesse ter sentido de autocongratulação foi eliminado de imediato pela apreensão horrenda que eu sentia diante da longa e perigosa descida que tinha pela frente’’.
‘‘No Ar Rarefeito’’ expõe o lado podre das expedições comerciais e a silenciosa ilusão que leva as pessoas ao topo do mundo. O fascínio que o Everest exerce sobre o homem como entidade natural grandiosa que necessita ser superada pela grandiosidade do próprio homem. Quieto em seu canto, o Sagarmatha, ou Chomolungma, reflete, em suas paredes de gelo, não só as virtudes dos homens, mas principalmente as imbecilidades humanas.
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