Divulgação‘‘O Império Contra-Ataca’’: denso e dramaticamente corretoA saga ‘‘Guerra nas Estrelas’’ é caso único na história do cinema fantástico. Apesar de todo o aparato tecnológico exibido, a trilogia tem um preponderante e poderoso apelo místico que termina por minimizar o arsenal de efeitos. Os personagens são menos intelectuais e mais emocionais e heróicos do que a maioria dos tradicionais habitantes da ficção-científica cinematográfica. Sua empatia reside não no futurístico uso da tecnologia, mas na sabedoria do espírito. Os aficcionados vão continuar se ligando mais nas misteriosas intercorrências da Força do que na resolução gráfica da Estrela da Morte ou no desenho aerodinâmico da Milenium Falcon. E os antepassados dos heróis não são aventureiros ao estilo Flash Gordon ou Buck Rogers, mas atendem pelo nome de Jedi, com características éticas muito próximas às dos cavaleiros cruzados da tradição mitológica cristã.
Esses são alguns dos motivos que fazem de ‘‘O Império Contra-Ataca’’ (veja a programação de cinema na página 3) o mais interessante intrinsecamente, o capítulo mais denso e dramaticamente correto. E por isso mesmo até tecnicamente discreto, se comparado a ‘‘Guerra nas Estrelas’’. Tanto é procedente que a versão em lançamento nos cinemas mundo afora é exatamente a mesma da estréia do filme, há 17 anos. Nada então tinha sido cortado, fosse por Lucas (só produtor) ou pela Fox; nada agora foi acrescido.
A força nos personagens - Em 1978, quando George Lucas decidiu dar prosseguimento a a ‘‘Guerra nas Estrelas’’, tomou duas providências: atuar apenas como produtor e convocar outro roteirista que desse forma ao seu argumento original. Convidou Irvin Kershner para a direção e a respeitável veterana Leigh Brackett para escrever o roteiro. Brackett, que trazia no currículo a co-autoria de westerns antológicos do calibre de ‘‘Rio Bravo’’, ‘‘El Dorado’’ e ‘‘Rio Lobo’’, morreu logo depois mas deixou pronto um primeiro tratamento, na sequência retrabalhado por Lucas. Mas quem arregaçou as mangas e fez toda a carpintaria pesada foi Lawrence Kasdan, jovem e talentoso roteirista recém-formado, que no verão de 78, aos 29 anos e ainda sem saber, tinha acabado de escrever o capítulo de abertura de um momento histórico para o cinema: o roteiro de ‘‘Os Caçadores da Arca Perdida’’.
Embora explicitamente admitindo ter quase nenhuma afinidade com ficção-científica ou fantasias em geral, Kasdan declarou na época que o interesse de George Lucas por um roteiro assinado por ele era porque todos os seus trabalhos para cinema eram histórias de pessoas. Ou comédias românticas, ou thrillers , ou qualquer outro gênero: todas baseadas em personagens. Talvez um pouco assustado com a barulheira meio mecânica de ‘‘Guerra nas Estrelas’’, Lucas pediu a Kasdan que fizesse um ‘‘Império’’ com ação sim, mas também com conflitos interiores, com gente emocionalmente complexa.
O resultado desta interferência deixa ‘‘O Império Contra-Ataca’’, enquanto filme, com qualidades que o recomendam alguns furos acima de ‘‘Guerra nas Estrelas’’. O que se discute aqui é a redescoberta da fé por Luke Skywalker e o destino de muitos dependentes desta mesma fé. A batalha espiritual íntima parece a princípio sem esperança, quando Luke falha em reconhecer o poder da Fôrça dentro de seu pequenino mestre Yoda e dentro dele mesmo. Mesmo quando aceita a existência do poder da Força ele se mostra incapaz de compreender sua verdadeira natureza. Numa mística e visionária confrontação, Luke derrota seu arquiinimigo Darth Vader apenas para descobrir sua própria face atrás da máscara negra. Para se transformar num verdadeiro Jedi é preciso fazer face ao seu próprio potencial maligno. O embate é bem mais complexo do que uma batalha de espadas a laser pode sugerir, mesmo brilhantemente coreografada.
Com apurado sentido de suspense e noção de perigo, ‘‘Império’’ é um trabalho mais dark e que deixa de lado as facilidades do maniqueismo primitivo onipresente em ‘‘Guerra nas Estrelas’’. O que é justo cobrar é que o filme não consegue um encerramento satisfatório, talvez por ser compulsoriamente aquilo que é: um capítulo do meio, sem um final concreto.

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