Débora Bloch não fez a menor questão de manter a vilania de Teodora. Ao ser escalada para viver a personagem mais malvada de ‘‘Salsa e Merengue’’, a atriz acabou optando por desvirtuar a perversidade original da ex-mulher de Eugênio, vivido por Marcelo Anthony. ‘‘Mais que tudo, Teodora é uma mulher politicamente incorreta’’, define Débora.
A atriz foi além do script originalmente traçado e procurou dar um tempero próprio à personagem. ‘‘Procurei humanizá-la porque, como toda pessoa prepotente, Teodora é extremamente carente’’, explica a atriz.
Apesar de ter construído sua carreira a base de trabalhos bem-humorados, Débora faz questão de dizer que não se acha absolutamente uma pessoa engraçada. ‘‘Procuro ver as situações da vida de maneira espirituosa, mas sou um fracasso contando piadas’’, revela Débora.
Com certeza não deve ser o que os diretores de dramaturgia da Globo acham. Afinal, ela é atualmente uma das profissionais mais requisitadas pelas produções globais. Somente este ano ela já participou de toda a primeira fase de ‘‘A Vida como Ela ɒ’ de vários episódios de ‘‘A Comédia da Vida Privada’’, além de ter sido escalada para um dos principais papéis de ‘‘Salsa e Merengue’’.
Aos 32 anos, ela é uma das poucas atrizes de sua geração que pode se dar ao luxo de só aceitar interpretar papéis que lhe agradem. ‘‘Já tive convites que recusei por não achar apropriados’’, garante Débora, que prefere não citar os nomes das produções.
Além da qualidade dos trabalhos, a atriz também não abre mão de convites para contracenar com amigos. Isto aconteceu recentemente no espetáculo teatral Cinco vezes comédia, onde atuou ao lado de colegas como Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Diogo Villela e Miguel Magno.
Mas tem um colega em especial que, mesmo sem atuar nesta peça, é apontado pela atriz como o parceiro perfeito. Seu nome é Pedro Cardoso, com quem ela adora contracenar. ‘‘Solto a bola e ele me devolve redondinha’’, vibra Débora.
Tamanha sintonia profissional pode ser facilmente explicada. Pedro, junto com Andréa Beltrão e Chico Diaz, foi colega da atriz no grupo Manhas e Manias, onde Débora começou a dar os primeiros passos rumo ao estrelato, no início dos anos 80. Passos que hoje já se transformaram numa apressada correria diária.
Por causa da pressa incessante, não são raros os dias em que ela se culpa por não ter estudado direito seus personagens em função da dedicação à filha Júlia, de dois anos. ‘‘Tenho de administrar esta angústia’’, enfatiza Débora.
Ainda assim, a atriz não pestaneja sequer um segundo ao afirmar que o nascimento da filha aconteceu no melhor momento de sua vida. ‘‘Acho até bacana a mulher ter filhos quando já está estabilizada’’, orgulha-se a atriz.
Mas nem mesmo o prestígio e a suposta estabilidade a impedem de sofrer os altos e baixos inerentes à carreira de ator. Um atenuante, no seu caso, é que ela se acostumou a acompanhar de perto a trajetória do pai Jonas Bloch, que alternava períodos de emprego com outros de incerteza. ‘‘Bom seria se estivéssemos nos Estados Unidos, onde um ator fica logo milionário’’, exagera Débora.
Mas, como não está disposta a ficar a mercê dos tempos bicudos, a atriz está partindo para a carreira de produtora. Entre algumas de suas produções, inclui-se o espetáculo Fica comigo esta noite, onde ela também atuou ao lado de Luiz Fernando Guimarães, e Kean, com Marco Nanini.
Nas poucas horas de lazer, a atriz gosta mesmo é de ficar em casa tranquila. Só que, assim como a Teodora de ‘‘Salsa e Merengue’’, Débora não tem papas na língua e logo se lembra dos cineastas para lhes desferir uma queixa, em tom de lamúria: ‘‘Eles só chamam a Patrícia Pilar’’.
Cheia de graça Débora Bloch começou a carreira na televisão contracenando com Mário Gomes na novela ‘‘Jogo da Vida’’, escrita por Sílvio de Abreu em 1982. De lá até os dias de hoje, acumulou bons papéis, sempre direcionados para o lado do humor. No ano passado, porém, trocou a Globo pelo SBT, onde estrelou a novela de época ‘‘As Pupilas do Senhor Reitor’’.
Para muitos não passou de mais uma tentativa da atriz de deixar de lado, de uma vez por todas, o estigma de comediante. ‘‘Não foi nada disso. Apenas me ofereceram as melhores condições de trabalho e eu topei na hora. Além do mais, sei que não sou humorista e sim uma atriz’’, enfatiza Débora.
Um ano depois, ela retorna ao humor em ‘‘Salsa e Merengue’’, onde vem incrementando com temperos de social climbing a ardilosa Teodora. O personagem, inclusive, foi criado exclusivamente para ela por Miguel Falabella. ‘‘Costumo falar que ela é uma loura má, só que bem soft’’, ironiza Débora. Loura má é o apelido de Falabella nos bastidores da tevê.
Com a obsessão em reconquistar o ex-marido Eugênio, vivido por Marcelo Anthony, Teodora não tem o menor escrúpulo em tirar as pessoas do seu caminho. Tem uma empregada que se chama Sexta-feira - numa alusão ao amigo nativo de Robinson Crusoé - e vive às turras com Patrícia França, a Madalena. ‘‘Na novela só chamo a Patrícia de aborígine’’, diverte-se a atriz.
Segunda geração Nem mesmo ela sabe explicar direito, mas Débora tem conseguido se desdobrar para exercer as três funções de que mais gosta: as de trabalhar, cuidar da filha Júlia e bancar a esposa carinhosa. Tarefas que a identificam como descendente de uma geração ultrapassada. ‘‘Faço parte de uma turma filha do feminismo e que discorda da mulher dedicada apenas ao lar’’, panfleta a atriz.
Ela admite, inclusive, que se voltou tanto para o lado profissional que chegou até a negar um pouco o casamento. Hoje, no entanto, depois de uma união frustrada com o diretor de fotografia Edgar Moura, Débora vive às mil maravilhas com o boulanger - ou, simplesmente padeiro de luxo - Olivier Anquier. ‘‘Ele faz um croissant como os que a gente só come na França’’, paparica a atriz.

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