Se existisse uma balança capaz de pesar os mal-entendidos da humanidade, seria mais fácil entender os caminhos de seus descaminhos. Poderia ser a prova cabal e inegável de que os mal-entendidos estão, de forma discreta, mais presentes na existência humana do que os aclamados ‘‘bem-entendidos’’.
Exemplo: seria possível confundir um texto literário do escritor alemão Franz Kafka (1883-1924) com uma mensagem secreta do revolucionário russo Lev Trotski (1879-1940) tramando a queda do capitalismo? Sim. Pelo menos para Benjamin, personagem trapalhão do novo romance do escritor gaúcho Moacyr Scliar, ‘‘Os Leopardos de Kafka’’.
No romance, Scliar conta a história do alfaiate Benjamin, mais conhecido como Ratinho, um imigrante russo que fixou residência em Porto Alegre. Nascido numa pequena aldeia judaica no interior da Rússia, Benjamin era amante das idéias de Marx e Engels, embora não tivesse coragem suficiente para pegar em armas em favor do proletariado.
Certo dia, às véspera da Revolução Russa de 1917, recebe uma missão de um companheiro à beira da morte. Um missão secreta programada por seu grande herói, Lev Trotski. Sua tarefa é ir até Praga e contatar um escritor que lhe entregará uma mensagem com instruções revolucionárias.
Humilde, medroso e atrapalhado, Benjamin parte para Praga orgulhoso em cumprir sua aventura secreta. O problema é que, ao chegar no destino, descobre que perdeu o endereço do escritor, seu contato. Tentando reverter seu erro desastrado, parte em busca de algum escritor com aparência revolucionária, e o destino, irônico, o leva até Franz Kafka.
Através de um mal-entendido, Benjamin acha que Kafka é seu contato, e Kafka acha que Benjamin é editor de uma revista literária em busca de um texto para publicação. Assim, Kafka entrega um texto literário a Benjamin, que faz todo o esforço para decodificá-lo como mensagem cifrada de uma operação revolucionária: ‘‘Leopardos irrompem no templo e bebem até o fim o conteúdo dos vasos sacrificiais; isso se repete sempre; finalmente, torna-se previsível e é incorporado ao ritual.’’
Confusão armada, o jovem Benjamin passa a viver uma série de situações kafkanianas, criadas por ele próprio, na tentativa de decifrar tal mensagem. Após muito sofrimento, admitindo seu fracasso, volta para sua pequena aldeia e acaba emigrando com os pais para o Brasil.
Lançado pela Editora Companhia das Letras – como quinto volume da coleção de romances policiais ‘‘Literatura ou Morte’’ focalizando grandes escritores da literatura mundial – ‘‘Os Leopardos de Kafka’’ possui o humor que Moacyr Scliar, cada vez mais, vem desenvolvendo em seus escritos. Um humor muito semelhante àquele presente em seu romance anterior, ‘‘A Mulher Que Escreveu a Bíblia’’ (Companhia das Letras, 1999), que ganhou o Prêmio Jabuti 2000.
Como em ‘‘O Processo’’ – onde Kafka coloca o homem como vítima de uma estrutura de controle externo – Scliar coloca o personagem Benjamin como vítima de uma estrutura interna, suas atrapalhadas na tentativa de se tornar um herói, um homem diferente de seu humilde destino.
Vale lembrar que, embora a literatura de Kafka seja considerada carregada de seriedade, o próprio escritor a chamava de ‘‘humorada’’. Em ‘‘Os Leopardos de Kafka’’ Moacyr Scliar prolonga esse humor com tons relaxados, onde os mal-entendidos passam a fazer parte integrante da vida e, na maioria das situações, se tornam a própria existência.
Para acentuar o poder do absurdo, um tanto irônico, o autor finaliza o romance com o manuscrito de Kafka, em poder do velho Benjamin, caindo nas mãos da polícia durante o período repressivo logo após Golpe de 1964. Os agentes passam a acreditar que o texto literário é uma prova da conexão dos comunistas brasileiros com uma rede internacional de guerrilheiros. Um mal-entendido sempre puxa outro em direção ao infinito.
‘‘Os Leopardo de Kafka’’, com seus temperos, se revela um dos melhores títulos dos já publicados dentro da coleção ‘‘Literatura ou Morte’’, que engloba ‘‘A Morte de Rimbaud’’, de Leandro Konder, ‘‘Medo de Sade’’, de Bernardo Carvalho, ‘‘O Doente MoliSre’’, de Rubem Fonseca, e ‘‘Stevenson Sob as Palmeiras’’, de Alberto Manguel.
Kafka e os Leopardos – De Moacyr Scliar, Editora Companhia das Letras, 120 páginas, R$ 16,00.

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