Arquivo FolhaConceitos estéticos são invariavelmente perigosos. Elásticos. Inesperados. Duvidosos. Surreais. Descartáveis. Perecíveis. No cinema então, mutatis mutandis (caso típico de kitsch de linguagem...), regras imprecisas e aceitas como limites do mau gosto já não são hoje o que eram ontem. O que nasceu brega muitas vezes já virou chique, e vice-versa. Ou melhor, cult , essa devoção mais ou menos cega que perdoa pequenos pecados em nome de misteriosa empatia que se alastra como hera venenosa - a propósito, os vilões de Batman são mortalmente kitsch .
Soberana do destempero visual, sonoro e adjacências, Hollywood tem uma história e tanto de mau gosto associado às imagens. E começou desde cedo, com os primitivos. Vistos hoje, porém, os primeiros fotogramas gravados pelos pioneiros já não seriam sumariamente remetidos à vala comum do kitsch . Filmes de Griffith, Chaplin, Keaton e outros precursores, na pior das hipóteses, passaram à modernidade como cândidos criadores de autênticas peças naif. E o que dizer da carnavalesca e hortifruti Carmen Miranda, monumento do exagero, intocável tico-tico brasileiro no fubá ianque ? E das coreografias eroticamente caleidoscópicas de Busby Berkeley, hoje a sacrossanta influência de um gênero que, de resto e no mínimo, sempre flertou com padrões nada convencionais de práticas estéticas ?
Curtir o camp Com muita frequência, o kitsch é confundido com o camp , que numa definição sem muito rigor seria uma proposta de novos critérios de apreciação. Conceito vago, camp seria este gosto que, aplicado ao cinema, nos faz até curtir filmes que são ruins a ponto de provocar o riso, ou interpretações afetadíssimas. Em resumo, camp seria toda a seriedade que fracassa, todo o pedantismo que leva ao ridículo. Como ‘‘O Mundo Perdido’’ de Spielberg, sequela inútil. Ou ‘‘Diabolique’’, a refilmagem do clássico do suspense de Henri George Clouzot. Ou ‘‘Independence Day’’, sci-fi hilária. Ou ‘‘Striptease’’, erótico como um cachorro atropelado.
Para ser camp , ou kitsch a caminho do cult , uma regra básica deve ser obrigatoriamente seguida: a espontaneidade. Tentativas deliberadas de fazer drama ou comédia atrelados a certos pressupostos rígidos - e não mais através da conjugação de infortúnios ao acaso - resultaram em consumados fracassos. Como ‘‘Drácula - Morto mas Feliz’’, de um irreconhecível Mel Brooks. Inocência e sinceridade serão sempre elementos residuais para uma performance kitsch em toda a sua plenitude. Somente assim pode-se obter um autêntico ‘‘Godzila’’.

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