O jovem rico ou o velho decadente?
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quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Aos 78 anos, o sempre ativíssimo Claude Chabrol segue tão prolífico, inteligente, impiedoso e pulsante como quando há cinco décadas irrompeu como um dos jovens destemidos da então nascente nouvelle vague, movimento que ajudou a mudar a face do cinema naqueles incríveis meados do século passado. Desde aquela fase ele dirige filmes: cinquenta anos de obras negras como carvão, repletas de humor sardônico e falsas aparências. Trabalha a média de um filme por ano. Como Woody Allen, que segue esta mesma rigorosa e produtiva dieta, Chabrol não deixa de fazer, uma vez ou outra, o mesmo filme.
Em ''Uma Garota Dividida em Dois'', em lançamento hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), se poderá encontrar ecos de outros filmes dele, como ''Mulheres Diabólicas'', ''A Mulher Infiel'', ''Madame Bovary'' ou o mais recente ''A Dama de Honra'', exibido ano passado em Londrina. A trama é diferente, os atores e os cenários também, mas a direção e algo mais quase tão imperceptível como a atmosfera opressiva continuam fiéis ao decálogo chabroliano: colocar a nu a hipocrisia da provinciana classe burguesa e utilizar uma fábula moral para relatar os obscuros impulsos homicidas que se escondem sob a máscara de prosperidade e riqueza.
Este seu mais recente trabalho - na realidade, embora novo já é o penúltimo, uma vez que apenas há alguns dias terminou as filmagens de ''Bellamy'', com Gérard Depardieu - tem como eixo três personagens: Gabrielle Deneige (a sempre sedutora Ludivine Sagnier), bela e desinibida ''moça do tempo'' num canal de tevê em Lyon: Charles Saint-Dennis (François Bereland), escritor de sucesso tão engenhoso quanto enganador e decadente e que se apaixona por ela apesar de ter o dobro da idade; e por último a ponta restante do triângulo, Paulo Gaudens (Benoit Magimel), jovem aristocrata herdeiro de grande fortuna que caprichosamente pretende roubar a garota do escritor.
Uma maquinaria diabólica é acionada. Ciúmes, luta de classes e desejo sexual constituem uma engrenagem que somente encontra uma saída: o crime passional. Sem explicitudes, trabalhando como sempre nas franjas da sutileza, o diretor vai fundo no tema da perversão, mas sem mostrá-la nunca. Acompanhando seu filme ano passado no Festival de Veneza, Chabrol disse na entrevista coletiva que ''trata-se de um filme de total castidade, e entretanto os personagens estão obcecados com as idéias mais perversas''.
Como em todo quebra-cabeças proposto por Chabrol, no fundo destes personagens prestigiosos e/ou poderosos há uma violência latente, uma perversão, uns egos e uma angústia que corrói a alma. O diretor, impiedoso como de hábito, vai quebrando esta aparência impoluta, este verniz perfeito para enfiar fundo seu estilete e mostrar como são miseráveis, mórbidas, contraditórias e muitas vezes vazias as relações (de sexo, de trabalho, de poder) no universo dos intelectuais arrogantes, dos ricos e dos famosos na França.
Alguns poderão objetar que Chabrol é reiterativo em seus tratados morais muito sem rodeios, seus dardos afiados contra o conservadorismo, a hipocrisia, a moral dúbia, o cinismo, a superficialidade, a ostentação, o racismo, a competição exacerbada, os medos, os ciúmes, a infidelidade e a culpa da burguesia francesa. Mas ele faz e repete tudo isto ano após ano com roteiros tão sólidos, narrações artesanais tão envolventes, atores tão convincentes e situações tão provocadoras que seu ''único filme'' resulta sempre estimulante e atual. O mestre francês permanece como um dos melhores cineastas na hora de retomar velhos temas e conflitos, e fazer com que pareçam novos, vigentes, contemporâneos e até mesmo surpreendentes.


